RDC e Rwanda culpabilizam-se sobre o impasse nas conversações
Kinshasa – Os Governos da República Democrática do Congo (RDC) e do Rwanda culpabilizaram-se pelo impasse que levou ao cancelamento das conversações de paz entre os líderes dos dois países, que teriam lugar, em Luanda, sob mediação do Presidente Angolano, João Lourenço.
De acordo com a estação televisiva Aljazeera, a Presidência da República Democrática do Congo (RDC) emitiu um comunicado, domingo, informando que a reunião foi cancelada, porque a delegação ruandesa se recusou a participar.
O comunicado, citado pela Aljazeera, acrescenta que “as conversações de paz chegaram num impasse, pelo facto do Rwanda exigir que a RDC mantivesse um diálogo directo com os rebeldes do M-23”.
Aljazeera diz também que o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Rwanda, por seu turno, informou que a falta de consenso sobre as conversações directas entre a RDC e grupo M23 significa que não seria possível assinar um acordo de paz.
“O adiamento da cimeira tripartida de Luanda sobre a paz na República Democrática do Congo se deveu a “questões críticas por resolver”, segundo o governo ruandês, que também acusou as autoridades congolesas de levar a cabo “ameaças”.
Em causa, segundo o comunicado do Governo ruandês, estão conversações directas com o grupo armado M23, alegadamente apoiado pelo Rwanda, para alcançar uma solução política para o conflito no leste da RD Congo, ponto sobre o qual não houve consenso na reunião de sábado.
“Por isso, a cimeira não teria resultado num acordo, em particular num contexto de ameaças continuas por parte das autoridades congolesas, incluindo o Presidente, para alcançar uma mudança de regime no Rwanda, refere o comunicado divulgado na rede social X, pelo ministério ruandês dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Internacional.
O Rwanda apontou também a coligação de forças que actuam no Leste da RD Congo, juntamente com as forças armadas congolesas, incluindo mercenários europeus, militares do Burundi, Wazalendo e as FDLR [milícias que combatem o M23]”, como sérias ameaças a sua segurança territorial.
De acordo com várias fontes, antes das negociações que teriam lugar no domingo, houve relatos sobre a intensificação de combates entre o exército da RDC e o grupo rebelde M23, na sexta-feira passada.
O exército da RDC acusou o M23 de ter morto 12 civis no início desta semana em aldeias do território de Lubero, na província oriental do Kivu Norte.
Um porta-voz do M23, no entanto, negou a acusação, desacreditando-a como 'propaganda' do Governo da RDC.
O M23 é um dos vários grupos armados que disputam uma posição na parte oriental da RDC, rica em minerais, perto da fronteira com o Rwanda.
O conflito no país criou uma das maiores crises humanitárias do mundo, com mais de sete milhões de pessoas deslocadas.
O Rwanda nega as acusações sobre o seu apoio ao M23, mas em Fevereiro admitiu que tem tropas e sistemas de mísseis no leste da RDC para salvaguardar a sua segurança, apontando para uma acumulação de forças da RDC perto da fronteira.
De acordo com um relatório do grupo de peritos da ONU, 3.000 a 4.000 membros da Força de Defesa do Rwanda (RDF) estão a lutar ao lado do M23 na RDC.
No mês passado, os ministros dos Negócios Estrangeiros da RDC e do Rwanda chegaram a acordo sobre os termos e condições da retirada das forças ruandesas do leste da RDC.
Em julho, a RDC assinou um cessar-fogo com o M23 que entrou em vigor em Agosto, mas os combates foram retomados desde então.
No início deste mês, os Estados Unidos disseram estar 'seriamente preocupados' com as violações do cessar-fogo por parte dos rebeldes do M23.
Nas últimas semanas, havia esperanças de que as conversações entre Paul Kagame e Félix Tshisekedi chegassem a um acordo para pôr fim ao conflito no leste da RDC, onde o grupo M23 – que a RDC e a ONU dizem ser apoiado pelo Rwanda – ocupou elevadas faixas de território, provocando o êxodo de milhares de pessoas e uma grave crise humanitária.