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Angola realça impacto do tráfico de escravos na sociedade africana

Angola realça impacto do tráfico transatlântico de escravos na sociedade africana
Angola realça impacto do tráfico transatlântico de escravos na sociedade africana Imagens: DR

Redacção

Publicado às 18h32 30/05/2026 - Actualizado às 19h06 30/05/2026

Luanda - O representante permanente de Angola junto das Nações Unidas, Francisco da Cruz, realçou, sexta-feira, em Nova Iorque, o impacto negativo severo da "escravatura radicalizada", que associou as populações africanas a uma condição permanente de subordinação, exploração e exclusão.

O diplomata, que falava nas II Jornadas comemorativas do Dia de África, a convite da Associação dos Estudantes da Universidade Federal do Piau, Brasil, frisou que os impactos deste sistema permanecem visíveis até hoje nas desigualdades económicas, sociais e raciais que afectam milhões de africanos e afrodescendentes em várias partes do mundo.

Segundo o representante angolano na ONU, tráfico transatlântico de escravos constituiu a maior migração forçada da história humana, durante cerca de quatro séculos, milhões de africanos foram capturados, deslocados à força e submetidos a condições desumanas de exploração.

Ao dissertar sobre o tema, no formato virtual, referiu que este sistema destruiu comunidades, separou famílias, enfraqueceu estruturas políticas africanas e contribuiu significativamente para o enriquecimento das economias coloniais e para a consolidação do capitalismo moderno.

Lembrou, na ocasião, que as sociedades africanas possuíam estruturas políticas, económicas e culturais complexas antes da colonização europeia.

Especificou que a escravatura e o colonialismo interromperam muitos desses processos históricos, contribuindo para a marginalização do continente africano no sistema internacional.

Neste contexto, destacou a relevância da adopção pela Assembleia Geral das Nações Unidas, da Resolução A/80/L.48.

O referido documento reconhece formalmente o tráfico transatlântico de africanos escravizados e a escravatura racializada como crimes contra a humanidade e reafirma a necessidade de enfrentar os seus legados persistentes, incluindo o racismo estrutural, a exclusão social e as desigualdades económicas.

Para o diplomata, ao reconhecer oficialmente os impactos históricos e contemporâneos da escravatura, a comunidade internacional reforça a legitimidade das reivindicações por justiça reparatória apresentadas por Estados africanos, organizações da diáspora africana e movimentos sociais.

A resolução realça também a importância da educação, da memória histórica e da promoção da igualdade racial como instrumentos fundamentais para prevenir a repetição dessas injustiças.

Notou que é cada vez mais crescente o debate sobre reparações históricas na arena internacional, sublinhando que a justiça reparatória não se limita à compensação financeira.

Inclui igualmente reconhecimento histórico, pedidos formais de desculpas, restituição de património cultural, reformas institucionais e políticas de inclusão social.

Neste sentido, evidenciou o destaque que o assunto tem merecido a nível da União Africana, que definiu 2025 como “O Ano da Justiça para Africanos e Povos Descendentes de Africanos através de Reparações”, bem como a iniciativa de estabelecer o período 2026-2036 como a “Década da Acção sobre Reparações e Herança Africana.

Salientou que os avanços são igualmente importantes no plano diplomático e simbólico, lembrando que, recentemente, o Presidente francês Emmanuel Macron defendeu o aprofundamento do debate sobre reparações ligadas ao papel histórico da França no tráfico transatlântico de escravizados, em cooperação com o Gana.

Paralelamente, a Conferência de Alto Nível sobre Justiça Reparatória, agendada para Junho de 2026 em Acra, constitui mais um passo na tentativa de converter reconhecimento histórico em acções concretas.

Por outro lado, fez saber que o Papa Leão XIV realizou, no passado dia 25 de Maio, um pedido histórico de perdão pelo papel da Santa Sé na legitimação da escravidão, reconhecendo esse passado como uma “ferida na memória cristã”.

Apesar disso, ressaltou que persistem importantes desafios políticos e jurídicos relacionados com a definição, implementação e alcance efectivo das reparações históricas.

Assinalou que a preservação da memória histórica é essencial para a construção de sociedades mais justas e inclusivas. A educação desempenha papel central neste processo.

Considerou que o ensino da história africana e da escravatura permite combater narrativas incompletas ou eurocêntricas e contribui para valorizar as culturas africanas e afrodescendentes.

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