AGRICULTURA

Safra de cacau na África Ocidental ameaçada pelo El Niño

Safra de cacau na África Ocidental ameaçada pelo El NiñoImagem: DR

04/09/2026 08h07

Abidjan — A nova campanha de cacau na África Ocidental começou esta semana sob fortes riscos climáticos e produtivos, com o fenómeno El Niño a aumentar as preocupações sobre a produção da Costa do Marfim e do Gana, os dois principais produtores da região e responsáveis por mais de metade da oferta mundial de cacau.

A campanha 2026/27 teve início a 1 de Setembro no Gana e na Costa do Marfim, num momento em que as primeiras avaliações apontam para uma redução da produção. No Gana, estimativas recentes colocam a colheita em cerca de 650 mil toneladas, contra aproximadamente 750 mil toneladas na campanha anterior.

Na Costa do Marfim, maior produtor mundial de cacau, as primeiras avaliações indicam uma produção próxima de 1,8 milhões de toneladas, cerca de 18% abaixo dos 2,2 milhões de toneladas registados na campanha 2025/26. A formação insuficiente das vagens e as condições meteorológicas adversas estão entre os principais factores de preocupação.

O El Niño constitui uma ameaça adicional porque pode provocar temperaturas mais elevadas e períodos de menor precipitação, reduzindo a humidade dos solos numa fase importante para o desenvolvimento das vagens. Os efeitos do fenómeno poderão agravar problemas que já afectam as plantações, incluindo doenças e o envelhecimento das árvores.

No Gana, os produtores enfrentam a podridão negra, a doença do swollen shoot e a idade avançada de muitas plantações. As chuvas intensas registadas anteriormente, acompanhadas de períodos com pouca exposição solar, também prejudicaram o desenvolvimento das vagens e dificultaram o controlo das doenças fúngicas.

Na Costa do Marfim, observadores da produção e exportadores também antecipam uma redução da colheita principal. Estimativas divulgadas anteriormente apontavam para uma produção entre 1,35 e 1,45 milhões de toneladas, contra cerca de 1,6 milhões de toneladas na campanha anterior, devido ao excesso de chuva, doenças e dificuldades no tratamento das plantações.

A vulnerabilidade dos pequenos produtores constitui outro factor de risco. Muitos agricultores têm acesso limitado à irrigação, ao financiamento e a tecnologias destinadas a aumentar a produtividade, o que reduz a capacidade de resposta perante alterações bruscas das condições meteorológicas.

As árvores envelhecidas também limitam o potencial produtivo e tornam as plantações mais susceptíveis a doenças. Segundo análises citadas pela imprensa especializada, condições mais secas e temperaturas elevadas poderão enfraquecer ainda mais as árvores e aumentar a pressão de pragas e doenças.

Apesar das perspectivas negativas para a próxima colheita, a oferta disponível actualmente continua relativamente elevada. A Costa do Marfim tinha enviado cerca de 2,11 milhões de toneladas de cacau para os portos até ao início de Agosto, mais 20% em relação ao mesmo período anterior, enquanto os stocks acompanhados pelas bolsas internacionais atingiram níveis elevados.

A situação coloca o mercado internacional entre dois cenários. Por um lado, a oferta actual é suficiente para limitar uma subida imediata dos preços; por outro, a possibilidade de uma quebra significativa da produção na próxima campanha reduz a margem de segurança do mercado.

A StoneX reduziu a sua previsão para o excedente mundial de cacau na campanha 2026/27 para 25 mil toneladas, contra 149 mil toneladas anteriormente estimadas. Uma redução tão acentuada do excedente significa que uma quebra adicional da produção ou uma recuperação da procura poderá voltar a pressionar os preços internacionais.

O comportamento do mercado deverá depender, nos próximos meses, da evolução do El Niño, do nível de incidência das doenças e da quantidade de cacau que chegar aos portos da Costa do Marfim e do Gana. A evolução da procura, sobretudo na Europa, América do Norte e Ásia, será igualmente determinante para definir o equilíbrio entre oferta e consumo.

Para os produtores da África Ocidental, a actual campanha poderá representar mais um teste à capacidade de adaptação do sector às alterações climáticas. O reforço do tratamento das plantações, o acesso a fertilizantes, a renovação das árvores envelhecidas e a melhoria das técnicas agrícolas serão essenciais para reduzir o impacto dos choques climáticos sobre a produção.

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