Mensagem

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Blog de José Luís Mendonça

José Luís Mendonça é jornalista, escritor e docente universitário. Fundou e dirigiu durante sete anos o jornal CULTURA, quinzenário angolano de Artes & Letras. Actualmente reparte a sua vida pública entre o jornalismo, o ensino e o activismo cultural pelo fomento do livro e da leitura. MENSAGEM é uma homenagem ao primeiro movimento cultural surgido em Angola nos últimos 50 anos, o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, cujo lema "Vamos Descobrir Angola!" operaria uma revolução decisiva na sociedade colonial dos fins da década de 40. Mensagem é o nome da revista desse movimento onde estiveram concentrados os expoentes máximos da intelectualidade daquela época, que jogou um papel decisivo perante a História de Angola. Ester blog recupera do passado esse legado e essa designação da Mensagem, na crença de que, ao descobrir Angola, também se vai reencontrando a África e descobrindo o Mundo e o Universo.

Blog de José Luís Mendonça

José Luís Mendonça é jornalista, escritor e docente universitário. Fundou e dirigiu durante sete anos o jornal CULTURA, quinzenário angolano de Artes & Letras. Actualmente reparte a sua vida pública entre o jornalismo, o ensino e o activismo cultural pelo fomento do livro e da leitura. MENSAGEM é uma homenagem ao primeiro movimento cultural surgido em Angola nos últimos 50 anos, o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola, cujo lema "Vamos Descobrir Angola!" operaria uma revolução decisiva na sociedade colonial dos fins da década de 40. Mensagem é o nome da revista desse movimento onde estiveram concentrados os expoentes máximos da intelectualidade daquela época, que jogou um papel decisivo perante a História de Angola. Ester blog recupera do passado esse legado e essa designação da Mensagem, na crença de que, ao descobrir Angola, também se vai reencontrando a África e descobrindo o Mundo e o Universo.


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30 Odes [Pouco ou nada Ortodoxas] - Apresentação do autor José Luís Mendonça

Escritor e Jornalista José Luís Mendonça (centro) lançou o livro de poemas 30 ODES (Pouco ou nada Ortodoxas), na União dos Escritores Angolanos (UEA)
Escritor e Jornalista José Luís Mendonça (centro) lançou o livro de poemas 30 ODES (Pouco ou nada Ortodoxas), na União dos Escritores Angolanos (UEA) Imagens: Cedida

Redacção

Publicado às 12h48 24/03/2026 - Actualizado às 12h58 24/03/2026

ESTARÁ O ESCRITOR EM PERIGO DE EXTINÇÃO?

Nos dias que correm, a Literatura em sentido lato, quer dizer, não apenas o livro de ficção e de poesia, toda a literatura, aí incluída a ciência, está num profundo estado de calamidade pública. Por que razão?

Não sou crítico literário, portanto, cabe aos cultores dessa arte de dissecar a literatura – e que, diga-se de passagem, também está muito ausente do campo da literatura nos nossos dias – trazerem essas preocupações para o olho atento de quem se interessa pelo livro em Angola.

Na minha qualidade de leitor assíduo e amante inveterado da Musa, digo-vos que, desde que o Professor Luís Kandjimbo, por razões da vida profissional, deixou de exercer essa função de crítico regular e metódico da nossa literatura, nunca mais surgiu outra pena isenta e verdadeiramente apostada em mostrar em que fontes bebe a literatura que vai saindo e qual é o trilho que deixa no caminho da história cultural angolana.

Outro intelectual que não era propriamente um crítico profissional, mas por ter a cabeça cheia de leituras do mundo inteiro (o poeta David Mestre), exerceu com brio essa tarefa.

Acredito que o poeta Lopito Feijóo, ainda se lembra da frase jocosa de David Mestre a propósito dos prefácios: “Há livros em que o prefácio é maior que o próprio livro!” Hoje, a mitografia do prefácio inunda a literatura angolana. Pena que David Mestre nos tenha deixado há mais de 30 anos.

Em pleno novo milénio, um certo vazio estético está a entranhar a literatura de ficção e poesia produzida em Angola. O pior de tudo, é que este vazio estético e criativo está a ser assumido como literatura. Falta uma crítica audaz, verdadeira e isenta, para repor as coisas no devido lugar.

A crítica literária não é outra coisa senão a perquirição do diamante raro no texto.

Por isso, os júris dos prémios de literatura não podem ser escolhidos por dá cá aquela palha! Têm de ser intelectuais (não precisam de ser escritores) que dominem essa capacidade de avaliação pericial das pedras estilísticas. Um concurso de literatura é exactamente como a competição da Fórmula Um: ganha quem corta a meta em primeiro lugar.

Ora, quem prepara o bólide é a crítica regular e sistemática de cada obra que vai saindo e que permite ao membro do júri ter uma ideia prévia das obras que, porventura, forem a concurso. Mas um requisito essencial é que o júri leia as obras, uma por uma.

A nossa sociedade é, por razões históricas, uma sociedade acrítica. E na Literatura, tal como na política, arranja-se inimigos. Este é o país que temos, mas não pode continuar neste estado bestial, 50 anos depois da independência.

A vida é pautada pela lei da evolução, não da estagnação. É preciso que pessoas abalizadas, como o Professor Luís Kandjimbo, voltem a ocupar o espaço vago, e preparem pupilos, pelo menos, para balizar o que é uma obra literária. Muita gente em Angola, escritores incluídos, desconhece os fundamentos da literariedade. Quando essas pessoas integram júris de prémios literários, o Campo da Literatura rasga-se como o véu do céu. É a crucificação da literatura.

Um dos resultados dessa banalização da Literatura em Angola, é a hibernação do maior galardão da nossa literatura, o Prémio Literário Sagrada Esperança, tutelado pelo Ministério da Cultura (através do INIC, Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas, agora metamorfoseado em ANICC), em parceria com a Fundação Dr. António Agostinho Neto e o Banco Caixa Angola, que, desde 2023, não se abre à competição.

Pesquisem quem foi o júri que outorgou, em 2022, o prémio Sagrada Esperança ao livro Diário de uma Kuvale, do escritor Aníbal Simões (que antes se chamou Cicakata Mbalundu), e por que razão, no ano seguinte, alguém ordenou ao INIC a defenestração do júri e a sua substituição por três figuras, uma das quais um rapaz da BJLA, sem capacidade para aferir os elementos performativos de uma obra merecedora de prémio? E então, desde essa substituição, simplesmente não há mais concurso.

Portugal, um pais que cabe 14 vezes dentro de Angola e com uma população de apenas 10 milhões de habitantes, tem mais de uma centena de concursos literários.

Angola, com 35 milhões de habitantes e 10 milhões de potenciais leitores, fechou o prémio de maior magnitude, em 2023. As tiragens de obras literárias em Angola são de 500 a mil exemplares. Quais são as prioridades do pelouro da nossa Cultura? Por que é que a UEA não promove um colóquio para debatermos esta questão fundamental para a vida da nossa literatura?

ACESSO AO LIVRO

Vamos esmiuçar o produto impresso chamado livro, que é o produto onde se guarda o conhecimento, seja ele ficcional ou científico. Onde podemos comprar o livro de um escritor hoje em dia? Em que espaço, o jovem de classe baixa, sem dinheiro para o comprar, pode ter acesso ao livro? Creio que só em Angola é que se admite uma aberração desta natureza: a escassez da oferta do livro nos espaços públicos.

Não acredito que este fenómeno exista no Congo, na Zâmbia ou na Namíbia. Nós, angolanos, perdemos o sentido e a nobreza da própria vida em sociedade. Deixámos de pensar nos outros, devido à espessura egocêntrica do petróleo e à crise de valores que gela a governação e a esfera da disputa política.

Desse iceberg gelado desprendem-se outros blocos frios. O preço a que estão os livros hoje em dia leva-os para o domínio exclusivo da classe média alta, de uma elite, se é que esta classe os lê. Uma família que faz das tripas coração para comprar um saco de arroz por mês vai comprar um livro ao preço de 20 mil kzs?

Não vou já falar da publicidade do livro, que não existe, tirando os flyers promocionais lançados nas redes sociais.

Nem vou falar da distribuição do livro pelas 21 províncias do país, porque, se no tempo do monopartidarismo existia uma empresa chamada EDIL, UEE, hoje nada existe que se lhe compare.

Porque é que eu estou a trazer aqui este problema, antes de falar especificamente do meu livro? Simplesmente, porque, sendo escritor, a continuar assim, auguro a extinção, dentro de 10 ou 20 anos, da nossa raça. Posso mesmo dizer que o escritor em Angola é uma espécie em vias de extinção, como as baleias, os elefantes e os leões. Porquê? Porque sem leitores não há literatura.

O QUE PODE SER FEITO?

A primeira solução é o apetrechamento regular da Biblioteca Nacional. É urgente que o Governo reacenda o poder auto-didáctico da Biblioteca Nacional de Angola. A Biblioteca Nacional deve ser alvo imediato da atenção da Presidência da República.

A solução complementar é a criação de bibliotecas comunitárias, em cada bairro. Para um universo de 10 milhões de pessoas que habitam Luanda (estou a cotar por baixo, somos mais), teríamos de ter 10 mil bibliotecas na capital, na proporção de uma biblioteca para mil utentes, o que ainda assim seria pouco. E se um livro pode servir para 100 leitores, o país teria de produzir 100 mil livros por ano.

Outra acção complementar, para colmatar a falta de livrarias, poderá ser o recurso à venda do livro nas lojas de conveniência nos bairros da periferia e mesmo do centro da cidade.

Uma medida eficaz para incitar os adolescentes e jovens estudantes a lerem seria a encomenda à China de 20 ou 30 milhões de tabletes exclusivos para leitura. Aquilo a que na Europa chamam de Kindle. Para um número tão elevado de tabletes de leitura, creio que a China faria um preço módico para Angola. Cada tablete seria depois preenchida de livros, desde manuais escolares a outras obras, de acordo com a etapa académica do estudante, até ao Ensino Superior. Aí seriam incluídos os livros do Plano Nacional de Leitura.

Para o cidadão criar o hábito (eu prefiro chamar vício) da leitura, não precisa necessariamente de um Plano Nacional de Leitura. Precisa de livros e precisa de ter acesso aos livros. E precisa que os professores sejam leitores assíduos.

Com esta série de acções no campo da Educação e da Cultura, no sentido da promoção do livro e da leitura, então, nós, os escritores, poderíamos respirar de alívio.

APRENDIZ DE FEITICEIRO

Dentre as diversas orientações estéticas da poesia angolana, podemos citar aquela que traz a oralidade da Angola profunda, dos povos pastoris e agrícolas do Sul, para produzir um discurso rural, um estado de alma bucólico, com recurso à rica provisão de provérbios e mitos desses povos.

Os casos mais paradigmáticos são Ruy Duarte de Carvalho e Paula Tavares. E há uma outra vertente poética que parte da vivência urbana, do asfalto ao musseque, cuja linguagem é própria dos lugares onde a argamassa, o ferro, o carro, a gasolina, o roboteiro e o seu kangulo, a zungueira e o fiscal fazem morada. Como papagaios de papel em contraste com o azul do céu, ficam outras expressividades intermédias.

Quanto a estas 30 Odes [pouco ou nada ortodoxas], elas trazem nos seus ritmos a ondulação das embarcações da Antiga Grécia, a síncrise romântica da Europa e o grito solar do Modernismo que se evola da Ode Triunfal de Ricardo Reis, ou da Ode à Cebola, ou a Ode ao Vinho do poeta Chileno Pablo Neruda.

Neste conjunto, eu cristalizei até onde fui capaz todas essas leituras com a escuta da poesia oral dos pastores Kwanyamas e a expressividade fónica e carnal das gentes que deambulam por esta Luanda.

Como podereis constatar, as 30 Odes são ilustradas com vinte desenhos do autor, a tinta-da-china. Antes de escrever, eu comecei na minha infância a desenhar. Fazia desenhos na areia. Alguns destes desenhos têm décadas de arquivo e foram todos produzidos a esferográfica.

Os versos e os desenhos estilizados expõem a diamantização das coisas do espírito e da matéria que, ao longo de três décadas, se foram industrializando na alma do poeta. Estes trinta poemas exaltam objectos-poesia na sua função utilitária de expressar o esteticismo africano evolucionista e integrador do universal.

Termino reafirmando que eu, nas vestes de poeta, sou um aprendiz de feiticeiro. Um eterno aprendiz. Xinguilo. Nesse estado de possessão espiritual, eu próprio sou o agente ritualista e a substância de oferenda aos deuses, no acto secreto de cristalizar um texto de uma raridade peculiar.

Deixem-me ainda xinguilar um pouco em três poemas do livro.

Cronos

Batem no portão. São relógios suíços
trocados no contrabando
de escravos. Relógios de pulso
com ponteiros tão líquidos como lágrimas
de crianças acabadas de parir.
Relógios de bolso feridos pela febre
hemorrágica do ouro.
Relógios de pêndulo, perfumados de incenso
tocando badaladas de cera.
Relógios de chama púrpura
ao largo do sonho
como um evangelho anunciando
o outro prisma da história.
Batem no portão. São dois Rolex
e um Patek Philippe dourando
a pílula amarga do tempo
com o seu rítmico rumor de remos rubros.
Batem no portão. O rei astro abre
e o tempo fende levemente a minha faringe
com ponteiros afiados no sangue coagulado
das crianças acabadas de parir.

A tecelagem do poema

Uma hiena morde
os degraus da escada

o cadáver de Zeus
petrificado no fonema
bate a cabeça na parede
até sangrar ferro nas orelhas

os dias escoam
no canto do galo
a catana o sino o prato
de esmalte do contratado

ao longe a carrinha chevrolet
morde a tecelagem do poema
num saco de café.

Livro de papiro

Sou um livro de papiro
escrito na água do Nilo
contra o olvido da espécie
acumulando em cada página
o passado mais longínquo
dos automóveis
da fórmula um a sangrar
o aço autografado
em feroz velocidade
portanto não digam nunca
que os negros não correm
no circuito fechado do Mónaco
enquanto a roleta joga
os números da sorte escondidos
em cascata no meu peito
para além da arte
de fazer cinema
no cocó azul de um pássaro.

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