Grupo de música Tukayana une Brasil e Angola há 40 anos
Crónica de José Coury
No sábado, dia 28 se Março de 2026, vivi uma emoção grande.
Há exatos 40 anos, quando eu estudava percussão, na Escola de Música de Brasília, conheci um jovem angolano, chamado Filipe Zau, estudante de Letras que fazia intercâmbio aqui.
Multinstrumentista e munido de uma voz grave e marcante, Filipe me convocou para ajudá-lo a montar uma banda com músicos brasilienses para interpretar exclusivamente músicas angolanas, algumas cantadas em línguas nacionais de Angola, entre elas umbundu e kimbundu.
Assim surgia a Tukayana, que significa liberdade (em umbundu). A formação inicial era a seguinte: Filipe Zau (voz e cordas), Silvana Mafra (voz), Leo Lima (clarinete), Alberto Sales (violão) e eu, José Coury (percussão).
A nossa primeira apresentação foi na livraria Galileu, no Conic, salvo engano, em evento alusivo ao Dia da Consciência Negra.
A partir do primeiro acorde e entrada da percussão, o público que lotava o lugar, começou a dançar e a energia era grande.
Após esse primeiro show, fomos convidados a tocar em vários bares da cidade, principalmente, nos saudosos “Bom Demais” e “Mistura Fina”. Tocamos também no Parque da Cidade e em festas particulares, além de eventos oficiais, promovidos por entes públicos e privados.
A banda então ganhou outros integrantes para dar mais “peso” ao som que fazíamos.
Entraram o Tom Vidal (bateria), Jorge Macarrão (percussão), o saudoso Evandro (contrabaixo eléctrico) e o Zeca do Trombone (trombone de vara). Começaram, então, a surgir convites para eventos importantes fora de Brasília.
Fomos convidados a tocar no Circo Voador, Rio de Janeiro, em show que contou com a participação de grandes nomes do cenário artístico-musical do País à época. Depois fomos chamados para tocar em Campo Grande (MS), num congresso promovido pelo Sindicato dos Jornalistas do Mato Grosso do Sul.
Após três anos de sucesso e alegria para todos nós, a banda, infelizmente, acabou. Isso porque o Filipe Zau concluiu o seu curso de Letras no Ceub e foi convocado pelo Governo de Angola a contribuir em projectos pedagógicos e culturais no seu país.
Sendo assim, não fazia sentido manter a banda Tukayana sem a sua figura central. A banda, então, foi encerrada e cada um seguiu o seu caminho na música e na vida.
Eis que 40 anos depois, Filipe Zau, hoje ministro da Cultura de Angola e um dos intelectuais mais influentes de seu país, voltou a Brasília para receber homenagens e condecorações, além de firmar protocolos de colaboração na área de cultura e educação.
Aproveitando a sua presença por aqui, ele fez questão de reunir a banda Tukayana novamente. Nos convidou para participar ontem da Primeira Noite Angolana de Brasília, promovida pela Embaixada de Angola, na Osteria Vicenza, no Complexo Brasil 21, e organizada pelo competente artista plástico e cantor angolano, Luandino Carvalho, actual adido cultural de Angola no Brasil.
Mesmo estando ainda me recuperando de uma cirurgia ortognática, realizada há um mês, e de uma trombose pós-cirúrgica na perna direita, eu não poderia perder a oportunidade de rever os amigos e de abraçar o mestre Filipe Zau, figura que continua com a mesma energia e carisma.
Foi um reencontro emocionante e memorável. Espero que não demore mais 40 anos para nos encontrarmos novamente.
Viva a Tukayana!
Brasília, 29 Março 2026