INVESTIGADOR
Investigador italiano defende descolonização da crítica literária
13/09/2026 13h43
Luanda - O crítico literário Luca Fazzini, da Universidade de Lisboa, defendeu a descolonização da crítica literária, durante a segunda conferência de Setembro da Academia Angolana de Letras, realizada na quinta-feira.
O investigador Luca Fazzini foi o conferencista convidado da série “Conversas da Academia à Quinta-feira”, integrada nas comemorações do 10.º aniversário da proclamação da instituição, de acordo com o JA Online.
O conferencista abordou o tema “Angola Atlântica, Angola Global: Perspectivas Literárias”, perante académicos de Angola, Bélgica, Brasil, Canadá, Moçambique, Portugal e Senegal.
Sob moderação do crítico literário senegalês Oumar Diallo, da Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar, a intervenção centrou-se na internacionalização da literatura angolana e nas suas travessias culturais pelo espaço atlântico.
Fazzini defendeu a necessidade premente de renovar os modelos teóricos tradicionais da crítica literária.
“Há uma passagem que é essencial, isto é, a descolonização e a desocidentalização da própria crítica”, disse.
Para o palestrante, a redefinição do valor literário exige uma “relação de diálogo completamente horizontal, sem hierarquias entre universos académicos e editoriais no Norte Global e no Sul Global”.
O autor do livro “Cidades do Atlântico, Literatura, Biopoder e Colonialidade” destacou que “a literatura dá prestígio a determinadas geografias”, notando que o alcance simbólico da criação artística pode superestimar o peso geopolítico de um Estado, uma vez que “há obras e autores que têm mais prestígio do que o próprio país”.
Desconstrução de estigmas midiáticos
Relativamente ao olhar europeu sobre África, Luca Fazzini enfatizou o potencial da ficção para desconstruir estigmas midiáticos e quantitativos, explicando que a criação literária permite uma aproximação à experiência do africano e da afrodescendência na Europa, a partir de um viés que privilegia os afectos e a estética em detrimento das estatísticas habitualmente associadas a cenários de precariedade.
Para ilustrar a complexidade das geografias atlânticas e das diásporas contemporâneas, o prelector analisou obras de José Eduardo Agualusa e Ruy Duarte de Carvalho, bem como de vozes actuais como Djamila Pereira de Almeida, Yara Monteiro e Kalaf Epalanga.
Quanto às barreiras à mobilidade humana, assinalou o paradoxo do contexto europeu, onde “o kuduro e a kizomba viajam pelo mundo sem precisar de visto, mas o corpo africano, que é produtor destas formas culturais, é frequentemente barrado nos mesmos aeroportos”.
Luca Fazzini concluiu a sua intervenção destacando o poder transformador da palavra na aproximação interpessoal e cultural, esclarecendo que a literatura actua “não é apenas um dispositivo que nos permite conhecer o outro dentro da perspectiva do migrante africano, mas também ser conhecido no país de chegada”.
As próximas Conversas da Academia à Quinta-feira estão agendadas para o dia 17 de Setembro, às 19 horas, com moderação da pedagoga Aldora Cadete Finda. Nessa sessão, o crítico literário Abreu Paxe vai abordar o tema “Agostinho Neto: poesia, literatura, paisagem e cultura”, com a participação livre via Zoom.
Luca Fazzini é um reconhecido investigador e professor universitário no Centro de Estudos Comparatistas (CEComp) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL).
É também o subdirector do Programa de Doutoramento em Português como Língua Estrangeira/Língua Segunda na mesma instituição. As suas principais áreas de actuação e investigação académica centram-se em Lisboa, com o foco especial em perspectivas pós-coloniais e na ligação cultural da cidade com o espaço afro-atlântico.