Banca angolana antevê descida gradual das taxas de juros do crédito
Luanda - O processo de flexibilização monetária iniciado pelo Banco Nacional de Angola (BNA), que fixou a taxa básica de juros em 15,75%, já cria condições para a banca rever progressivamente o preço do crédito, considerou o presidente da Associação Angolana de Bancos (ABANC), Mário Nascimento.
Convidado a pronunciar-se por ocasião do Dia da Banca, que se assinala esta sexta-feira, o responsável defendeu que existem razões objectivas para esperar uma redução gradual das taxas de juro, impulsionada pela descida da inflação homóloga para 9,33% em Julho.
Contudo, segundo o JA Online, ressalvou que este recuo deve ocorrer de forma sustentável e diferenciada, em função do perfil de risco de cada cliente. O presidente da ABANC lembrou que a taxa cobrada pelos bancos não é determinada exclusivamente pelo BNA ou pela inflação.
O preço do crédito resulta também de factores como o custo de captação de depósitos, liquidez, risco de incumprimento, custos operacionais, impostos e encargos regulatórios.
“Se a inflação está a cair, a política monetária torna-se menos restritiva e o custo de financiamento do sistema acompanha essa trajectória, isso deve, progressivamente, chegar ao consumidor e às empresas, barateando o custo do crédito à economia”, afirmou.
Bancarização ainda é um desafio
Relativamente à relação entre o número de balcões e a população bancarizada, o líder da associação sectorial considera que os actuais níveis ainda não satisfazem plenamente o mercado.
Apesar dos avanços na inclusão financeira, destacou o impacto da modernização dos sistemas de pagamentos e da digitalização no acesso aos serviços.
Para o presidente da ABANC, o sector atravessa uma transição estrutural, fruto da reestruturação a que o sistema foi submetido nos últimos dez anos.
Apontou que o mercado está hoje “mais capitalizado, mais regulado, tecnologicamente mais sofisticado e com maior capacidade de intermediação financeira”.
“Já não estamos perante o mesmo sistema bancário de há cinco ou dez anos. Mas temos um paradoxo: o sistema cresceu mais rapidamente do que a profundidade da bancarização e do crédito à economia”, referiu.
Com a taxa de bancarização a rondar os 35%, o circuito formal cobre apenas um terço da população adulta.
De acordo com o gestor, para que Angola alcance a meta de 36% prevista para 2027, será necessário integrar cerca de 1,5 milhões de novos clientes.
“O grande desafio do sistema bancário é fazer com que mais angolanos utilizem efectivamente os serviços financeiros formais, que estes sejam acessíveis e que a banca consiga transformar recursos captados em crédito produtivo. Eu resumiria o momento actual em quatro palavras: estabilidade, transformação, concorrência e inclusão”, frisou.
Sector regista maior digitalização dos serviços
Para o presidente do Sindicato Nacional dos Empregados Bancários de Angola (SNEBA), Filipe Makengo, o crescimento do sector tem demonstrado resiliência, pautando-se por uma maior digitalização dos serviços e expansão geográfica, embora acompanhado de redimensionamentos estratégicos na rede física para a optimização de custos.
O líder sindical explicou que a expansão dos pagamentos electrónicos, das fintechs e dos serviços digitais melhora a eficiência das instituições e facilita o acesso da população ao sistema financeiro.
Disse que os grandes desafios actuais centram-se no combate aos efeitos da inflação e da volatilidade cambial sobre o poder de compra, no cumprimento exigente dos rácios de capital regulatório impostos pelo BNA, na gestão prudente do crédito malparado e no reforço da cibersegurança face à crescente dependência tecnológica.
De acordo com o responsável, o papel principal da banca consiste numa intermediação financeira eficiente, capaz de canalizar as poupanças geradas pelas famílias e empresas directamente para o investimento produtivo. Esse fluxo de capital é o que permite às indústrias expandirem as suas operações, modernizarem frotas e adquirirem novas tecnologias.
O sector deve, por isso, desempenhar funções vitais para garantir a estabilidade macroeconómica e o funcionamento fluido do sistema de pagamentos nacional, mitigando riscos sistémicos.
Além disso, cabe aos bancos o compromisso ético e estratégico de financiar a economia real. Ao conceder crédito a empresas de diversos portes e a particulares, a banca actua como o motor que impulsiona a criação de novos empregos e o desenvolvimento socioeconómico sustentável.
Realçou ainda a urgência de promover a inclusão financeira de forma agressiva. A meta é integrar os milhões de cidadãos que ainda se encontram desbancarizados no circuito formal da economia, utilizando soluções móveis e digitais de baixo custo, o que reduz a dependência do mercado informal e fortalece a arrecadação de receitas do Estado.
História da banca angolana
A implantação formal do primeiro estabelecimento bancário no país ocorreu a 21 de Agosto de 1865, com a abertura da sucursal do Banco Nacional Ultramarino (BNU) em Luanda, seguido mais tarde pela criação do Banco de Angola em 1926-1975.
A acção de controlo da Banca, também conhecida como Tomada da Banca, surgiu a 14 de Agosto de 1975, um marco para a classe trabalhadora sob a protecção do Sindicato e do Governo de Transição.
Ao assumirem o controlo pacífico e a gestão das administrações dos bancos comerciais após a independência, os angolanos criaram as premissas para a edificação de um sector que, hoje, se apresenta robusto e organizado em comparação com outras áreas da economia nacional.
O sector Bancário foi nacionalizado com o surgimento do Banco Nacional de Angola (BNA), acumulando funções de banco central, comercial e emissor, e o Banco Popular de Angola (BPA).
Com a modernização da Banca e com as Leis n.º 4/91 e n.º 5/91, lei Orgânica do BNA e das instituições financeiras, o Estado abriu mão do monopólio, com o surgimento de múltiplos bancos comerciais públicos e privados.