CONFLITO
Colômbia considera "presença excessiva" dos EUA ameaça para América Latina
19/11/2025 22h42
Bogotá - A ministra dos Negócios Estrangeiros (MNE) da Colômbia, Rosa Yolanda Villavicencio, sustentou hoje que a "presença militar excessiva" dos Estados Unidos na região representa "uma ameaça para a América Latina e as Caraíbas".
Villavicencio acusou Washington de utilizar "argumentos falsos" sobre o combate ao tráfico de droga para justificar as suas recentes operações na região, incluindo ameaças de intervenção militar nos territórios de países latino-americanos.
"Temos alertado que a presença militar excessiva na região constitui uma ameaça para a América Latina e para as Caraíbas", declarou a ministra colombiana, num fórum EFE-Casa de América realizado em Madrid, antes de recordar que aquela região "é um território de paz", uma vez que "os conflitos estão noutros hemisférios".
A América Latina declarou-se, através da plataforma da Comunidade de Estados Latino-Americanos e das Caraíbas (CELAC), um território de paz, e queremos que continue a sê-lo, apesar dos problemas internos que todos os países têm", insistiu.
"A partir desta posição de autonomia e não-ingerência, oferecemos serviços de mediação para resolver problemas internos e, se isso falhar, respeitamos a capacidade das nações para resolver e lidar com quaisquer contradições que tenham", acrescentou.
A chefe da diplomacia colombiana afirmou que, por isso, "é uma agressão e uma afronta que os Estados Unidos (EUA) apresentem um argumento falso, porque a luta contra o tráfico de droga tem sido conduzida de forma muito decidida na Colômbia, e não foi necessário violar o Direito Internacional Humanitário ao intervir em águas internacionais".
No entanto, reiterou que Bogotá "estende a mão" a Washington para "um diálogo político e diplomático, de forma a resolver quaisquer divergências ou opiniões diferentes que possam existir em relação ao trabalho da Colômbia no combate ao tráfico de droga".
Expressou igualmente as suspeitas da Colômbia de que "possa haver alguma ação secreta contra a Venezuela" por parte dos Estados Unidos, embora tenha observado que se trata de uma possibilidade "incerta".
Insistiu ainda na necessidade de "respeito pela soberania e de acatar o pronunciamento da ONU, que advertiu de forma muito clara que estas execuções extrajudiciais não podem ser admitidas numa comunidade internacional em que todas as nações aceitaram convenções e normas que todos devem respeitar".
A MNE colombiana defendeu que escolher um caminho que desconsidere o Direito Internacional para lidar com esta situação leva "à barbárie" e a "que cada um faça o que bem entende porque tem mais poder ou porque pratica um unilateralismo que já não é eficaz para resolver problemas que são sobretudo globais e partilhados".
"Cabe aos Estados Unidos refletir sobre a adequação de manter esta postura", observou Villavicencio, acrescentando que Washington "está a isolar-se um pouco em termos de apoio e simpatia" e que "isso também é importante para as nações - ser respeitada e admirada, não temida".
Alertou também de que "qualquer ação secreta, qualquer ação que desestabilize a Venezuela produzirá um êxodo muito grande [de população para a Colômbia] e "economicamente também seria muito prejudicial: haveria um enorme impacto económico e uma crise humanitária".
Villavicencio defendeu ainda o trabalho das autoridades colombianas no combate à droga, comentando que "talvez falte informação e conhecimento, mas os resultados da luta contra o narcotráfico provêm de duas frentes: uma, atendendo diretamente às necessidades das populações afetadas e às causas mais imediatas, que é o facto de os agricultores se sentirem compelidos, devido ao abandono das suas terras, a cultivar folhas de coca para depois as transformarem em droga".
"Na medida em que abordámos e aplicámos os acordos de paz de 2016 --- com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) ---, avançámos em mais de 12.000 hectares em programas de substituição de culturas", sublinhou, antes de explicar que tal significa que esse segmento da população agrícola "fará a transição para uma economia legal", o que "deve ser feito através de políticas públicas".
Salientou que o Governo do Presidente de esquerda, Gustavo Petro, está a trabalhar para combater a "profunda injustiça da expropriação dos camponeses e a sua exclusão da participação na sociedade, especialmente em termos de igualdade de oportunidades entre as zonas rurais e urbanas", com o objetivo de garantir que estas comunidades têm "condições de vida aceitáveis", com acesso a estradas, telecomunicações, escolas, saúde e meios legais de produção, entre outras coisas.
Segundo a governante, estes planos levaram à cessação do cultivo de folha de coca em algumas áreas, onde foi substituída por "café, cacau ou quinoa e outros produtos industriais", e é agora necessário "entrar numa nova fase", em que o setor agroalimentar ajude a impulsionar este processo através da venda e exportação destes produtos.
"É importante notar que, nos últimos períodos, o setor agrícola tem sido o que mais tem crescido na economia do país, o que significa que os esforços desenvolvidos (...) estão a surtir efeito", declarou.
"Logicamente, 200 anos de injustiça é muito tempo para ser corrigido em três anos de Governo, mas foram feitos avanços qualitativos nesse sentido", argumentou.