Director da AIEA considera "extremamente difícil" acordo com Teerão
Munique - O Director da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, considerou hoje que um acordo com Teerão sobre as inspeções do programa nuclear iraniano é "completamente possível", apesar de "extremamente difícil".
O líder da agência da ONU recordou, na Conferência de Segurança de Munique, que os inspetores regressaram ao Irão após os bombardeamentos em junho passado de Israel e dos Estados Unidos, onde foi possível "inspecionar tudo, exceto o que tinha sido atacado".
"Conseguimos retomar o trabalho, estabelecer uma forma de diálogo --- imperfeito, complexo e extremamente difícil, mas existe. Portanto, penso que a grande questão agora é como definir os passos para o futuro, e sabemos perfeitamente bem o que é necessário verificar e como verificá-lo", afirmou Grossi, observando que o progresso da tarefa da AIEA exige "andar na corda bamba".
O Irão recusou, em novembro, que a agência inspecionasse os vários locais bombardeados, alegando que os queria inserir numa "nova estrutura".
Estados Unidos e Irão reataram conversações há uma semana em Omã sobre o programa nuclear iraniano, no seguimento de repetidas ameaças do Presidente norte-americano, Donald Trump, de voltar a atacar a República Islâmica.
O encontro entre o ministro do Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araqchi, e o enviado da Casa Branca Steve Witkoff não produziu resultados concretos, mas ambos os lados concordaram prosseguir o diálogo.
Rafael Grossi alertou, por outro lado, para as crescentes dúvidas sobre o sistema internacional de não proliferação nuclear, reconhecendo que tem limitações, mas continua a ser um dos poucos elementos de "certeza" num mundo cada vez mais instável.
O diplomata argentino salientou que um novo aspeto é que as críticas ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares provêm de Estados que até agora se mantinham "em perfeita consonância" com as obrigações do acordo.
Segundo o Director da AIEA, países relevantes do Golfo Pérsico, da Ásia e da Ásia Menor, bem como da Europa, sem referir nenhum em concreto, começaram a levantar publicamente a questão de rever a sua posição sobre a não proliferação de armas nucleares.
A razão, acrescentou, é que certos governos acreditam que a moderação que usaram durante meio século pode já não servir os seus interesses nacionais num novo ambiente de incerteza geopolítica.
Para o responsável da agência da ONU, esta inquietação abre uma "possibilidade real" de que mais países procurem capacidades nucleares, o que seria "terrível" para a segurança internacional.
Grossi salientou que, do ponto de vista técnico, a proliferação é "perfeitamente possível" e alertou para os riscos de, com o desaparecimento de outros instrumentos de controlo de armamento, o tratado, que proporcionou estabilidade durante meio século, possa também ser enfraquecido.
Em março passado, o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, disse ao parlamento que Varsóvia deveria procurar "as capacidades mais modernas", incluindo as "relacionadas com armas nucleares", perante a ameaça russa e a incerteza sobre o compromisso de Washington com a defesa europeia.
Mais recentemente, o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan, alertou, numa entrevista televisiva, que se o Irão obtiver armas nucleares, o equilíbrio regional seria drasticamente alterado e indicou que Ancara poderia ser arrastada para uma corrida ao armamento.