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Morreu reverendo Jesse Jackson aos 84 anos

Reverendo Jesse Louis Jackson, uma das figuras mais marcantes na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, morreu em Chicago
Reverendo Jesse Louis Jackson, uma das figuras mais marcantes na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, morreu em Chicago Imagens: DR

Redacção

Publicado às 12h41 19/02/2026

Luanda - O reverendo e histórico dirigente dos direitos civis afro-americano, Jesse Jackson, morreu, esta terça-feira, vítima de doença, indica um comunicado da família.

O reverendo Jesse Louis Jackson, uma das figuras mais marcantes e eloquentes da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e herdeiro moral do legado de Martin Luther King Jr., morreu em sua casa, em Chicago, rodeado pela família.

Tinha 84 anos e sofria, desde 2017, de uma doença neurodegenerativa, a paralisia supra-nuclear progressiva, que lhe afastou da vida pública, nos últimos meses.

No documento, citado pela Euronews, a família avança que o activista morreu em paz rodeado de entes queridos.

“O seu compromisso inabalável com a justiça, a igualdade e os direitos humanos ajudou a moldar um movimento global pela liberdade e pela dignidade”, acrescenta a nota.

Na nota referem que Jesse Jackson foi um agente incansável de mudança, que elevou as vozes dos que não tinham voz, desde as campanhas presidenciais que liderou, na década de 80 do século passado, até a mobilização de milhões de pessoas para se recensearem para votar, deixando uma marca indelével na história.

“O nosso pai foi um líder ao serviço dos outros, não só da nossa família, mas também dos oprimidos, dos que não tinham voz e dos esquecidos em todo o mundo. Partilhámo-lo com o mundo e, em troca, o mundo passou a fazer parte da nossa família alargada”, lê-se no comunicado.

Nascido na pobreza e na segregação racial de Greenville, Carolina do Sul, em 1941, filho de uma mãe adolescente solteira, Jesse Jackson fez da superação a sua bandeira.

O seu célebre mantra, “I am somebody” (Eu sou alguém), entoado em igrejas, escolas e comícios, era mais do que um poema, era um grito de afirmação e dignidade para uma comunidade sistematicamente marginalizada.

Em 1971, fundou a Operation PUSH (People United to Save Humanity), em Chicago, uma organização dedicada não apenas à moral, mas à economia e ao trabalho.

Através de boicotes e negociações aguerridas, pressionou gigantes corporativos como Coca-Cola e Anheuser-Busch a contratarem mais negros e a investirem em comunidades de cor. Mais tarde, fundiu a sua organização com a National Rainbow Coalition, criando a Rainbow PUSH Coalition, uma aliança multirracial que incluía brancos, latinos, asiáticos e a comunidade LGBTQ, antecipando o eleitorado diverso que décadas mais tarde elegeria Barack Obama.

Jesse Jackson foi o homem que provou que um negro podia aspirar à Casa Branca muito antes de isso ser uma possibilidade real. Em 1984 e, de forma ainda mais significativa, em 1988 candidatou-se à nomeação presidencial pelo Partido Democrata.

A sua campanha de 1988 foi um fenómeno político e social. Jackson venceu 13 primárias e assembleias partido, conquistando cerca de sete milhões de votos.

A sua retórica, que fundia a cadência gospel com uma análise política afiada, mobilizou multidões e forçou o partido a rever o seu sistema de nomeação de delegados, tornando-o mais proporcional, uma mudança que beneficiaria directamente Obama vinte anos depois.

Em 2008, quando Obama venceu a presidência, Jackson foi visto em lágrimas nas arquibancadas da convenção democrata, um misto de alegria e catarse de quem viu um sonho tornado realidade.

Para além das fronteiras americanas, Jackson afirmou-se como um mediador internacional de peso. A sua habilidade diplomática informal valeu-lhe a libertação de dezenas de reféns e prisioneiros em pontos críticos do globo: pilotos na Síria (1984), dissidentes no Iraque de Saddam Hussein (1990) e soldados na ex-Jugoslávia (1999).

Foi um feroz opositor do apartheid na África do Sul e, durante a presidência de Bill Clinton, actuou como enviado especial para a democracia em África.

O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, recordou-o esta terça-feira como alguém cuja “energia e clareza de princípios” apoiaram a luta contra o regime racista.

Nos seus últimos anos, mesmo confinado a uma cadeira de rodas e com a fala comprometida pela doença, Jackson manteve-se como uma presença moral.

Em 2020, durante os protestos do Black Lives Matter, após a morte de George Floyd, ainda discursou, lembrando que a luta não era uma vitória, mas um alívio temporário.

Em 2024 fez uma das suas últimas aparições públicas na Convenção Nacional Democrata, em Chicago, recebendo uma ovação de pé.

Casado com Jacqueline Brown, desde 1962, deixa seis filhos, incluindo o antigo congressista Jesse Jackson Jr., e um legado que o activista Al Sharpton resumiu de forma tocante: “O reverendo Jesse Jackson não foi apenas um líder dos direitos civis; ele era um movimento em si mesmo. A melhor forma de o honrar não é apenas com a memória, mas com o movimento. Ensinou-nos a continuar a marchar”.

Num dos seus discursos mais memoráveis, Jesse Jackson disse: “A minha missão é abrir brechas para que outros, atrás de mim, possam passar a correr". E, ao longo de 58 anos de uma vida de luta, ele não apenas abriu essas brechas como iluminou o caminho para milhões.

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