Exportações portuguesas para os EUA caem 719 milhões de euros
Lisboa -As exportações portuguesas para os Estados Unidos recuaram 719 milhões de euros em 2025, invertendo a trajetória de crescimento registada nos anos anteriores e encerrando o ano com uma contração homóloga de 13,45%.
Depois de, em 2024, Portugal ter vendido cerca de 5320 milhões de euros em bens para o mercado norte-americano, o valor fixou-se nos 4601 milhões de euros no ano seguinte, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Trata-se da primeira quebra desde 2021, interrompendo o ciclo de recuperações sucessivas após a pandemia, num contexto marcado por divergências constantes do presidente dos EUA, Donald Trump, quanto à aplicação de tarifas comerciais.
De acordo com o Jornal de Notícias (JN), o mercado norte-americano continua a representar 6% do total das exportações portuguesas, mantendo-se entre os principais destinos fora da União Europeia, mas o dinamismo perdeu força ao longo do ano à medida que se intensificaram as ameaças de taxação por parte da administração norte-americana.
A imposição de uma tarifa de 15% — ainda não em vigor — reacendeu tensões comerciais e agravou os custos de entrada no mercado dos EUA, mesmo em sectores que não foram diretamente visados, através da renegociação de contratos, adiamento de encomendas e maior prudência por parte dos parceiros comerciais.
O setor que mais contribuiu para a contração foi o dos combustíveis, cujas vendas para os EUA caíram 45,36%, passando de 1078 milhões de euros em 2024 para 589 milhões em 2025.
A quebra reflete tanto a volatilidade dos preços internacionais da energia como o impacto das novas tarifas. Em sentido oposto, os produtos farmacêuticos — principal setor exportador para aquele mercado — cresceram 5,3%, alcançando 1230 milhões de euros.
A Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica (Apifarma) não detalha as razões deste aumento, mas, numa posição pública sobre o acordo comercial entre a União Europeia e os EUA, alerta que o pacto “ameaça as cadeias de abastecimento globais e dificulta o investimento em I&D, o que terá um impacto direto nos doentes, nos sistemas de saúde e na indústria farmacêutica”, acrescentando que o aumento de 15% nas tarifas será absorvido pelas empresas, “dado que o preço do medicamento é regulado”.
Nos sectores tradicionais, o comportamento foi desigual. O vestuário registou um crescimento próximo dos 3%, demonstrando resiliência num ambiente adverso. César Araújo, presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção, afirma que o setor “tentou adaptar-se a um mercado que tem muito potencial. Ainda exportamos pouco e queremos aumentar a nossa quota”, defendendo ainda que a Europa “fez um mau negócio” em julho e que os EUA “deixou de ser um parceiro fiável”.
Já a cortiça recuou 13,5% e a indústria do ferro e aço caiu cerca de 24%, penalizada pelas tarifas e pelo abrandamento da atividade industrial norte-americana.
Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal, refere que “o comportamento dos clientes norte-americanos tornou-se mais cauteloso, com adiamento de algumas encomendas, maiores exigências contratuais e por vezes com procura por fornecedores alternativos em geografias menos expostas às tarifas”.