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Mudança "radical" nos EUA está a transformar relações com UE

Mudança "radical" nos EUA está a transformar relações com UEImagem: DR

03/02/2026 22h53

Tromso - A chefe de diplomacia da União Europeia avisou hoje que a "mudança radical" nos Estados Unidos está a transformar as relações transatlânticas, o que é "particularmente visível" na região do Árctico.

Kaja Kallas salientou, ao discursar na Conferência das Fronteiras do Árctico, em Tromso, na Noruega, que "o mundo mudou" e isso é particularmente visível na região do Ártico, onde se assiste a uma "competição crescente pelos recursos e rotas comerciais".

"Não vou repetir as ameaças que existem, com exceção de uma, que não podemos ignorar: a mudança radical no pensamento dos Estados Unidos, que marca uma transformação estrutural nas relações transatlânticas", advertiu, salientando que isso se tornou "particularmente visível" nas últimas semanas relativamente ao Árctico, numa referência às pretensões do Presidente norte-americano, Donald Trump, de anexar a Gronelândia.

Kallas disse que a UE percebe que a Gronelândia é "estrategicamente importante para os Estados Unidos", mas, salientou, também é importante para os 27.

"Perto [da Gronelândia] há rotas submarinas estratégicas, recursos críticos para a economia global e a trajectória de voo mais curta para mísseis balísticos provenientes da Rússia passa por cima do Extremo Norte", referiu.

Apesar de reconhecer que, actualmente, as tensões entre os Estados Unidos e a UE sobre a Gronelândia estão "mais baixas" do que há duas semanas, a responsável europeia garantiu que "há pouca clareza sobre o que virá a seguir ou quando poderá surgir a próxima discussão".

"Por isso, reitero o que já disse: a UE apoia Gronelândia, apoia o seu Estado-membro, a Dinamarca, e defendemos a Carta das Nações Unidas. Cabe aos gronelandeses e à Dinamarca definir o futuro da Gronelândia", disse.

A Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança defendeu ainda que o bloco precisa de desenvolver uma "nova estratégia para o Árctico", que reflicta os "tempos actuais", referindo que a última estratégia data de 2021, um ano antes de a Rússia invadir a Ucrânia.

Desde então, "Moscovo voltou a abrir bases militares da era soviética" no Árctico, "uma das maiores concentrações de armas nucleares no mundo está na Península de Cola, mesmo ao lado da fronteira com a Noruega" e a Rússia utiliza a região como "terreno para testar mísseis", disse.

"A Europa tem de recuperar o atraso de anos de reforço militar russo na região", defendeu.

Pouco depois, questionada pela moderadora se a Europa não é demasiado cautelosa com os Estados Unidos, a chefe da diplomacia da UE respondeu que "é cautelosa porque há muito em jogo".

"Temos uma guerra de grande escala no continente europeu e há grandes ameaças, por exemplo de coerção económica, da China, que influenciam as nossas economias. Se influenciam as nossas economias, influenciam os nossos empregos, salários e está a criar polarização e instabilidade nas nossas sociedades", disse.

Por isso, a UE tem de "ter cuidado", "adaptar-se e trabalhar", acrescentou.

"Nós não queremos conflitos com ninguém. Queremos uma vida pacífica e próspera para todos, mas este é o mundo em que vivemos", referiu.

No final da conferência e em declarações aos jornalistas, com o ministro dos Negócios Estrangeiros norueguês, Espen Barth Eide, Kallas foi questionada sobre possíveis concessões da Rússia nas negociações sobre a guerra na Ucrânia, mas disse não ter visto até agora "qualquer sinal".

"Estão a maximizar as suas exigências e é por isso que a nossa resposta é clara: temos de pressionar mais a Rússia, para garantir que deixam de fingir que querem negociar e comecem efectivamente a fazê-lo", sublinhou.

 

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