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Centena de petroleiros imobilizados à porta do estreito de Ormuz

Centena de petroleiros imobilizados à porta do estreito de Ormuz
Centena de petroleiros imobilizados à porta do estreito de Ormuz Imagens: DR

Redacção

Publicado às 18h43 03/03/2026 - Actualizado às 20h09 03/03/2026

Teerão - Mais de uma centena de navios petroleiros encontram-se imobilizados à porta do estreito de Ormuz, numa das mais graves perturbações logísticas das últimas décadas, à medida que o conflito entre os Estados Unidos e o Irão se intensifica e mergulha numa fase de elevada incerteza.

Pelo menos 40 dessas embarcações são superpetroleiros com capacidade para cerca de dois milhões de barris cada.

Com pouco mais de 30 quilómetros de largura no seu ponto mais estreito, o estreito de Ormuz constitui uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta. Por estas águas circula aproximadamente 20% do fornecimento mundial de petróleo e também de gás natural liquefeito (GNL). No total, cerca de 21 milhões de barris de crude por dia atravessam este corredor que liga os grandes produtores do Golfo Pérsico aos principais mercados internacionais.


O regime de Teerão tem, ao longo dos anos, utilizado a ameaça de bloquear esta via como instrumento de pressão geopolítica. Agora, com as hostilidades plenamente desencadeadas com os Estados Unidos e Israel, o Irão afirma manter o estreito fechado e ameaça “incendiar” qualquer navio que tente atravessá-lo. Washington rejeita a existência de um encerramento formal, mas a incerteza instalada revelou-se suficiente para travar o tráfego.

Superpetroleiros imobilizados e seguros suspensos

Segundo dados de monitorização da Kpler, pelo menos 40 VLCC (Very Large Crude Carriers), superpetroleiros com capacidade para cerca de dois milhões de barris cada, encontram-se parados no Golfo Pérsico. No total, mais de uma centena de navios cisterna aguardam desenvolvimentos, temendo novos ataques nas proximidades do estreito.

Vários armadores e capitães indicam estar à espera de maior clareza em matéria de segurança antes de avançarem. As principais companhias de navegação recomendaram igualmente prudência, aconselhando os navios a manterem-se em zona segura.

Numa nota citada pela Bloomberg, os analistas da Fearnley Securities, Fredrik Dybwad e Sigurd Gjone Gabrielsen, alertam: “É provável que as ineficiências aumentem na sequência dos recentes acontecimentos, uma vez que esperamos que os armadores adotem uma atitude de espera”.

A situação agravou-se com a retirada de cobertura por parte das seguradoras. Mais de metade das maiores companhias de seguros marítimos do mundo suspenderam as apólices de risco de guerra para embarcações que entrem no Golfo, elevando drasticamente os custos e os riscos operacionais.

Ataques confirmados e alerta máximo
A ameaça iraniana não se limita a declarações. Pelo menos três navios foram alvo de ataques até segunda-feira. O Centro Conjunto de Informação Marítima (JMIC), grupo consultivo naval multinacional focado na região, elevou o nível de alerta para “crítico”, citando “ataques confirmados com mísseis e drones contra múltiplos navios comerciais no golfo de Omã, nas proximidades de Musandam e nas águas costeiras dos Emirados Árabes Unidos”.

Segundo o JMIC, o petroleiro com bandeira norte-americana Stena Imperative foi atingido por projéteis. Por outro lado, um navio anteriormente considerado afetado, o Sea La Donna, deixou de constar como sinistrado, ilustrando a volatilidade e confusão que marcam o cenário atual.

Dados da plataforma Vortexa mostram que apenas quatro superpetroleiros atravessaram o estreito a 1 de março, face aos 22 registados no dia anterior. Nas últimas 24 horas, apenas um número residual de grandes navios terá conseguido sair da via navegável. Dois petroleiros iranianos sob sanções norte-americanas parecem estar prestes a entrar.

Navios “desaparecem” dos radares
O número real de embarcações retidas poderá ser superior, sobretudo se forem considerados petroleiros de menor dimensão. Muitos navios optaram por desligar os seus transponders, tornando-se invisíveis nos sistemas de rastreamento para reduzir riscos, o que dificulta a monitorização exata da situação.

Os registos de bandeira da Libéria e das Ilhas Marshall, o primeiro e o terceiro maiores do mundo, respetivamente, instruíram as embarcações a adotar o nível máximo de segurança, implicando a suspensão de operações de carga.

Impacto imediato nos mercados e risco para produtores
A paralisação já afeta países importadores e poderá, caso se prolongue, comprometer também os próprios produtores. Com capacidade limitada de armazenamento e escassez de navios vazios disponíveis no Golfo, existe o risco de os tanques encherem e forçarem a suspensão de produção caso a crise dure várias semanas.

Analistas do JPMorgan & Chase estimam que um encerramento efetivo superior a 25 dias poderá obrigar à interrupção da produção. Do lado da procura, refinarias asiáticas ponderam cortes de 20% a 30% na produção, antecipando falhas no abastecimento.

A disrupção estende-se ao GNL, em particular às exportações do Qatar, segundo maior exportador mundial, cujos carregamentos também dependem da travessia de Ormuz. Vários navios porta-contentores suspenderam igualmente o trânsito ou inverteram rota.

O Danske Bank estima que cerca de 77 milhões de barris de petróleo estejam retidos a bordo de aproximadamente 150 petroleiros no Golfo Pérsico.

“O impacto tem sido uma maior pressão sobre as cadeias de abastecimento globais, levando a taxa de frete de referência a um máximo histórico, duplicando desde sexta-feira. As tarifas diárias de frete dos petroleiros de GNL subiram mais de 40% na segunda-feira após a interrupção da produção no Qatar, amplificando os receios de escassez energética”, refere o banco nórdico.

Armadores e intermediários exigem agora mais de 200.000 dólares por dia por navios cisterna de GNL na bacia atlântica, aproximadamente o dobro do valor praticado menos de 24 horas antes, após o Qatar ter suspendido produção na sequência de ataques.

A equipa de matérias-primas do Société Générale antevê que “a congestão de petroleiros, a reprogramação de cargas, as restrições de seguros e os atrasos portuários criariam um atraso logístico que poderia demorar várias semanas a resolver”, acrescentando que o mercado continuará a incorporar o risco de uma interrupção prolongada até à reabertura oficial das rotas.

Cenário de alto risco e múltiplas incógnitas
O banco francês considera provável que os Estados Unidos consigam neutralizar a capacidade do Irão para manter o estreito fechado, mas alerta que será mais difícil eliminar o risco de ataques pontuais por parte de Teerão ou de grupos aliados, dada a vasta gama de alvos potenciais na região.

Sublinha ainda que um bloqueio prolongado constituiria “um grave autossabotagem económica” para o próprio Irão, cuja exportação de petróleo e gás — crucial para a obtenção de receitas — depende precisamente dessa via para chegar a mercados como China e Índia.

A BCA Research observa que “a situação permanece incerta em meio à confusão inicial da guerra, mas é provável que as perturbações no trânsito pelo estreito de Ormuz persistam no curto prazo”. A consultora destaca que as restrições de seguros e a interferência de GPS estão já a limitar o fluxo, reduzindo a necessidade imediata de recurso a meios militares convencionais.

A mesma entidade admite, ainda que como cenário menos provável, a hipótese de um encerramento prolongado por anos, o que exigiria reconfiguração de infraestruturas e capacidades militares para redirecionar fluxos energéticos. “Embora consideremos este cenário menos provável neste momento, continua a ser uma possibilidade”, refere, apontando que a fragilização do regime poderá ter deixado algumas células da Guarda Revolucionária Islâmica mais isoladas e autónomas.

Num contexto já marcado por ataques da milícia huti no Mar Vermelho, que é apoiada por Teerão, e pelo desvio de grandes rotas comerciais, o bloqueio de Ormuz ameaça desencadear uma nova vaga de perturbações globais, num momento em que a economia internacional ainda procura estabilidade.

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