40 milhões de contas da Tving comprometidas em ataque informático
Seul — Cerca de 39,54 milhões de contas de utilizadores da plataforma sul-coreana de transmissão de vídeo Tving foram comprometidas num ataque informático detectado em Junho, segundo os resultados de uma investigação conjunta realizada pelo Governo e pelo sector privado e divulgados esta quinta-feira, 3 de Setembro.
O Ministério da Ciência e das Tecnologias da Informação e Comunicação revelou que, para além das contas de utilizadores, foram comprometidos 361 activos tecnológicos da empresa, incluindo projectos de desenvolvimento e código-fonte. A investigação decorreu durante 3 meses e procurou determinar a origem do ataque, a dimensão dos danos e as falhas nos sistemas de segurança da plataforma.
Do total de contas afectadas, 22,06 milhões estavam activas e podiam ser utilizadas para iniciar sessão. Outras 17,37 milhões encontravam-se inactivas, incluindo contas suspensas ou pertencentes a antigos utilizadores. Foram ainda identificadas 110 mil contas utilizadas para testes.
Os investigadores esclareceram que o número de 39,54 milhões não corresponde necessariamente ao número de pessoas afectadas, uma vez que um mesmo utilizador podia possuir várias contas. Em alguns casos, foram identificadas pessoas com até 13 contas associadas ao sistema.
A maior parcela das contas afectadas, cerca de 22,47 milhões, correspondia a utilizadores que aderiram à Tving através de serviços de autenticação de redes sociais, incluindo Naver, Kakao, Facebook, Apple e X. Outros 8,63 milhões estavam associados ao sistema integrado de membros CJ ONE, enquanto 7,26 milhões foram registados directamente na plataforma.
A informação comprometida abrangia 20 categorias e 70 tipos de dados. Entre os elementos expostos encontravam-se nomes, datas de nascimento, números de telefone, endereços electrónicos e informações de ligação utilizadas para identificar os utilizadores. A natureza exacta dos dados expostos variou consoante o método utilizado para criar cada conta.
A investigação concluiu que o ataque começou depois de um hacker não identificado obter uma chave de acesso pertencente a um programador. Essa chave foi utilizada para penetrar nos sistemas internos da Tving e aceder a informações dos utilizadores e a recursos técnicos da empresa.
Os investigadores determinaram que os dados roubados foram transferidos para contas localizadas no estrangeiro. Até ao momento, contudo, não foi possível determinar a localização do atacante nem o país a partir do qual a operação foi conduzida. A polícia sul-coreana mantém uma investigação para identificar os responsáveis.
As autoridades detectaram sinais anormais nos servidores da base de dados da Tving no dia 30 de Maio. A empresa comunicou o incidente à Korea Internet & Security Agency, KISA, no dia 1 de Junho. A investigação concluiu, contudo, que a comunicação não foi feita dentro do prazo de 24 horas previsto para este tipo de incidente.
A Comissão de Protecção de Informações Pessoais deverá realizar uma avaliação separada para determinar a dimensão definitiva da violação e decidir eventuais sanções contra a empresa. O incumprimento do prazo de comunicação poderá também resultar numa multa.
As autoridades sul-coreanas alertaram para o risco de utilização dos dados roubados em ataques posteriores, incluindo mensagens fraudulentas, conhecidas como smishing, e esquemas de fraude telefónica. A exposição de dados pessoais pode permitir que criminosos combinem diferentes informações para aumentar a credibilidade de tentativas de fraude.
O incidente ocorre depois de uma série de ataques informáticos de grande dimensão contra empresas sul-coreanas nos últimos 12 meses. Entre as empresas afectadas encontram-se as operadoras de telecomunicações SK Telecom e KT, além da plataforma de comércio electrónico Coupang.
A Tving, operada pela CJ ENM, pediu desculpas publicamente aos seus utilizadores. A directora-geral da empresa, Choi Ju-hee, assumiu a responsabilidade pelo incidente e afirmou que a companhia irá implementar medidas correctivas para impedir a repetição de ataques semelhantes e recuperar a confiança dos clientes.
A empresa anunciou igualmente um forte aumento do investimento em cibersegurança. A Tving pretende quadruplicar, nos próximos 5 anos, os recursos destinados à protecção dos seus sistemas, além de implementar medidas de emergência e planos de segurança de médio e longo prazo.
Como forma de compensação, a plataforma anunciou que os utilizadores afectados terão acesso, entre outros benefícios, a 1 ano de seguro contra-ataques informáticos e phishing, vantagens adicionais de transmissão, 5.000 won em créditos na plataforma e cupões de entretenimento.
O ataque representa um sério desafio para a Tving num momento em que a empresa começava a apresentar sinais de melhoria financeira. No segundo trimestre, a plataforma registou receitas de 140,7 mil milhões de won, equivalentes a cerca de 103,6 milhões de dólares, e um lucro operacional de 6 mil milhões de won, alcançando pela primeira vez resultados operacionais positivos desde que passou a funcionar como empresa independente, em 2020.
As autoridades sul-coreanas consideram que o caso demonstra a necessidade de reforçar a gestão das chaves de acesso, a protecção dos ambientes de desenvolvimento e os mecanismos de detecção e comunicação de incidentes.
A dimensão do ataque, que afectou tanto contas activas como inactivas e activos técnicos internos, aumentou a pressão sobre as empresas sul-coreanas para reforçarem os seus sistemas de protecção de dados.