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Governo da Venezuela sem legitimidade para acordo petrolífero com os EUA

Governo da Venezuela sem legitimidade para acordo petrolífero com os EUA
Governo da Venezuela sem legitimidade para acordo petrolífero com os EUA Imagens: DR

Redacção

Publicado às 07h47 04/09/2026

Caracas — A líder da oposição venezuelana e laureada com o Prémio Nobel da Paz, María Corina Machado, contestou o direito do actual Governo interino da Venezuela de negociar os recursos petrolíferos do país com os Estados Unidos, considerando que o regime instalado em Caracas não possui legitimidade democrática para assumir compromissos desta natureza.

Machado fez as declarações na sequência do acordo petrolífero anunciado pela Administração norte-americana, que prevê uma participação dos Estados Unidos no desenvolvimento de campos petrolíferos venezuelanos.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, classificou o entendimento como o “maior acordo petrolífero da história mundial”.

Num vídeo divulgado publicamente, Machado afirmou que os recursos naturais da Venezuela pertencem ao povo venezuelano e não a um Governo que considera ilegítimo. Segundo a dirigente da oposição, as autoridades actualmente instaladas no Palácio de Miraflores não dispõem de um mandato democrático para negociar a riqueza do subsolo nacional.

Apesar das críticas, Machado sublinhou que considera os Estados Unidos um parceiro fundamental para a recuperação económica da Venezuela.

Defendeu, contudo, que qualquer cooperação deve assentar em princípios de transparência, legalidade, eficiência e respeito pela vontade dos venezuelanos.

A dirigente da oposição manifestou igualmente preocupação pelo facto de os venezuelanos e os sectores políticos que considera representantes legítimos da população estarem afastados das decisões sobre o futuro dos recursos energéticos do país. Disse que a situação provoca “tristeza e indignação” entre os seus apoiantes.

A posição de Machado surge num momento de profundas mudanças políticas na Venezuela. O país é actualmente dirigido por Delcy Rodríguez, Presidente interina que assumiu o poder em Janeiro, depois da retirada de Nicolás Maduro do poder numa operação das forças especiais norte-americanas.

O acordo envolve uma parcela significativa das reservas petrolíferas venezuelanas. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo bruto do mundo, estimadas em cerca de 303 mil milhões de barris, dos quais mais de 65 mil milhões estão relacionados com o acordo anunciado por Washington.

Segundo a Casa Branca, porém, o entendimento não foi celebrado directamente com o Governo interino venezuelano, mas com uma empresa privada. Washington afirma que o acordo concede ao Governo dos Estados Unidos direitos de governação e participação económica, bem como acesso garantido ao petróleo produzido pela nova empresa petrolífera privada venezuelana.

A Administração Trump sustenta que o projecto constitui parte da estratégia de estabilização, reconstrução económica e transição democrática da Venezuela. O Governo norte-americano afirma ainda que serão criados mecanismos de auditoria e supervisão financeira para assegurar que as receitas provenientes do petróleo sejam utilizadas em benefício da população venezuelana.

Machado, entretanto, defende que a recuperação da indústria petrolífera exige mais do que capital. Segundo a líder oposicionista, o país necessita igualmente de instituições democráticas, segurança jurídica, profissionais qualificados e condições estáveis para atrair investimentos nacionais e estrangeiros de longo prazo.

A indústria petrolífera venezuelana produz actualmente cerca de 1,25 milhões de barris por dia, muito abaixo dos cerca de 3 milhões de barris diários registados no final da década de 1990. Empresas internacionais como Chevron, Eni e GE Vernova estão envolvidas em iniciativas destinadas a recuperar a produção e modernizar o sector energético venezuelano.

A contestação de Machado coloca, assim, em evidência uma questão central do actual processo venezuelano: a necessidade de conciliar a recuperação urgente da indústria petrolífera com a legitimidade política, a soberania sobre os recursos naturais e a realização de eleições democráticas.

A oposição venezuelana continua a contestar o processo eleitoral de 2024 e considera que a actual estrutura de poder não recebeu um mandato popular para decidir sobre os recursos estratégicos do país.

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