HABITAçãO
Crise da habitação na Austrália pode levar uma geração a ser resolvida
04/09/2026 07h44
Canberra — A crise da habitação na Austrália poderá levar grande parte de uma geração a ser resolvida, apesar da previsão de queda dos preços das casas, alertou Sally Auld, economista-chefe do National Australia Bank, NAB, durante uma audição parlamentar sobre as desigualdades habitacionais entre gerações.
A economista afirmou que a descida dos preços, por si só, não será suficiente para melhorar de forma significativa a capacidade das famílias de adquirir uma habitação.
Segundo as projecções do NAB, os preços dos imóveis nas capitais australianas poderão cair cerca de 7% entre o ponto mais elevado e o ponto mais baixo do actual ciclo.
Auld defendeu que uma melhoria significativa da acessibilidade habitacional dependerá de um aumento sustentado da oferta de novas casas durante um longo período. A actual insuficiência de habitações acumulou-se ao longo de vários anos e não poderá ser corrigida através de uma única medida governamental.
“A habitação acessível é um dos desafios económicos e sociais mais importantes da Austrália”, afirmou a economista perante a comissão parlamentar que investiga a desigualdade habitacional entre gerações.
Os preços das casas aumentaram muito mais rapidamente do que os rendimentos das famílias desde o início do século. Entre os factores apontados encontram-se as taxas de juro mais baixas, as regras fiscais aplicadas ao sector imobiliário e o crescimento da procura.
A situação tem afectado sobretudo os jovens e os compradores da primeira habitação. Segundo dados apresentados durante a investigação parlamentar, o número de crianças australianas que vivem em famílias arrendatárias aumentou 20% neste século, sendo que estas crianças enfrentam, em média, 6 mudanças de residência até aos 14 anos.
Os 4 grandes bancos australianos defendem igualmente um aumento da construção de habitações. Representantes das instituições financeiras afirmaram perante a comissão que a insuficiência da oferta constitui uma das principais causas da crise de acessibilidade para os compradores da primeira habitação.
A situação é agravada pelo aumento dos custos de construção. A indústria da construção enfrenta problemas relacionados com a falta de mão-de-obra especializada, custos elevados de financiamento, limitações no planeamento urbano e dificuldades na disponibilização das infra-estruturas necessárias para novos empreendimentos.
Auld chamou ainda a atenção para o facto de muitos projectos habitacionais aprovados pelas autoridades não chegarem a ser construídos ou sofrerem atrasos de vários anos. Os custos elevados fazem com que alguns empreendimentos deixem de ser financeiramente viáveis para os promotores.
A margem de lucro dos promotores está a ser pressionada simultaneamente pela subida dos custos de construção e pela redução dos preços dos imóveis. Esta combinação poderá dificultar ainda mais o aumento da oferta de novas habitações no curto prazo.
A economista Luci Ellis, antiga responsável do Banco de Reserva da Austrália e actual economista-chefe do Westpac, afirmou igualmente perante a comissão que factores estruturais das últimas décadas contribuíram para a actual situação.
Segundo Ellis, a redução da inflação e a liberalização do sistema financeiro contribuíram para a descida das taxas de juro e permitiram às famílias assumir empréstimos hipotecários maiores em relação aos seus rendimentos. Este processo contribuiu para a subida dos preços das casas em relação aos rendimentos familiares.
A imigração constitui outro factor de pressão sobre o mercado. Ellis reconheceu que a Austrália beneficia economicamente da entrada de trabalhadores qualificados, mas advertiu que o crescimento populacional aumenta a dificuldade de construir habitações suficientes para todos os residentes.
Entretanto, os preços nacionais das habitações já registaram uma queda de 3,6% desde o pico alcançado em Março, segundo dados da Cotality. Em Sydney, as previsões apontam para uma possível redução muito mais acentuada, enquanto outras grandes cidades também enfrentam uma correcção do mercado.
A comissão parlamentar considera que a redução dos preços continua insuficiente para resolver o problema. A senadora Barbara Pocock, que preside à investigação, salientou que os preços das casas aumentaram cerca de 400% desde 1999, pelo que uma redução de apenas alguns pontos percentuais representa um alívio limitado para quem procura comprar a primeira habitação.
Pocock defende também um aumento significativo do investimento em habitação pública, argumentando que a redução desta oferta nas últimas décadas agravou as desigualdades entre gerações. A comissão deverá apresentar o seu relatório final até ao final de Setembro.
A crise poderá, assim, continuar a representar um dos principais desafios económicos e sociais da Austrália durante vários anos. Para os economistas ouvidos pelo Parlamento, a solução passa por aumentar a construção, melhorar a produtividade do sector, acelerar os processos de aprovação, disponibilizar infra-estruturas e garantir maior oferta de habitação pública e privada.