Presidente João Lourenço optimista com Plano Mattei
Addis Abeba – O Presidente angolano, João Lourenço, afirmou, sexta-feira, em Addis Abeba, que África deve aproveitar as oportunidades proporcionadas pelo Plano Mattei para acelerar o seu desenvolvimento e reduzir o défice estrutural que ainda a separa de outras regiões do mundo.
Em conferência de imprensa, no final da Cimeira Itália-África, na capital etíope, João Lourenço frisou que em menos de dois anos, a Itália e África realizaram duas cimeiras centradas naquele plano estratégico, sinal da importância atribuída à cooperação bilateral.
João Lourenço afirmou que o continente africano possui grandes potencialidades, mas ainda não apresenta níveis de desenvolvimento comparáveis aos da Europa e das Américas, realidade que tem constituído preocupação constante das lideranças africanas.
O líder da União Africana, cujo mandato cessa este sábado, lembrou os encontros mantidos com a União Europeia, incluindo a recente cimeira realizada em Luanda, salientando que, neste caso, a parceria ocorre com um Estado-membro específico, a Itália, o que demonstra que países grandes ou pequenos necessitam de cooperação para alcançar o progresso.
Segundo o estadista angolano, o Plano Mattei oferece uma oportunidade concreta de mobilização de recursos financeiros para a construção de infra-estruturas, sector em que o continente apresenta carências significativas, nomeadamente em domínios rodoviário, ferroviário, portuário, aeroportuário e energético.
Para o Presidente João Lourenço, sem energia não existe desenvolvimento, considerando utópico falar em progresso sem resolver o défice de electrificação, tendo acrescentado que a África dispõe de grandes cursos de água que, com a construção de barragens hidroeléctricas e redes de transporte, podem contribuir para superar esse défice.
O líder angolano acrescentou que o continente africano possui igualmente matérias-primas estratégicas, incluindo minerais raros essenciais à transição energética, o que reforça a sua relevância no actual contexto internacional.
João Lourenço defendeu ainda o investimento no capital humano, ao afirmar que as infra-estruturas, por si só, não bastam.
Por isso, sublinhou a necessidade de se apostar na formação, na criação de emprego e na oferta de oportunidades para a juventude africana.
O Presidente cessante da União Africano manifestou satisfação com o rumo do Plano Mattei e garantiu, em nome dos Estados-membros da UA, empenho total para assegurar o sucesso da iniciativa e a concretização dos compromissos assumidos.
Imigração
O Chefe de Estado abordou também a questão da migração irregular de jovens pelo Mediterrâneo e reconheceu a pressão enfrentada pela Itália, um dos principais destinos de jovens africanos que procuram melhores condições de vida na Europa.
A propósito, agradeceu a postura considerada responsável das autoridades italianas no acolhimento dessas pessoas.
Entretanto, admitiu que a responsabilidade de travar o fluxo migratório cabe, em primeiro lugar, aos governantes africanos, mas considerou que o apoio europeu, em particular italiano, pode contribuir para criar condições que fixem os jovens nos seus países de origem.
Sobre a Cimeira
Esta edição da Cimeira Itália-África marca um momento histórico, por constituir a primeira vez que o encontro decorre em solo africano, concretamente na capital etíope.
A iniciativa decorre em paralelo com a 39ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, facto que reforça o seu simbolismo político e estratégico, ao colocar o diálogo Itália-África no centro da agenda continental.
A cimeira é liderada pela Primeira-Ministra italiana, Giorgia Meloni, e centra-se na consolidação do Plano Mattei, instrumento estratégico adoptado por Roma para redefinir a cooperação com o continente africano.
Entre os principais objectivos figura o balanço dos projectos lançados desde a primeira edição da cimeira, realizada em Janeiro de 2024.
Em 2025, o volume financeiro associado às iniciativas enquadradas no Plano Mattei situou-se entre 1,3 e 1,4 mil milhões de euros, indicador que demonstra a dimensão da aposta italiana.
Sob o lema “Uma ponte para o crescimento comum”, o encontro reflecte a intenção declarada do Governo italiano de estabelecer uma parceria assente na igualdade e no respeito mútuo, afastando-se de abordagens paternalistas que marcaram períodos anteriores das relações euro-africanas.
Os sectores estratégicos em destaque incluem a energia, as infra-estruturas, a educação, a segurança alimentar e a mitigação das causas profundas da migração irregular.
No domínio das infra-estruturas, merecem realce projectos estruturantes como o Corredor do Lobito, considerado fundamental para a integração regional e facilitação do comércio.
Participam no evento líderes de 54 nações africanas, além de representantes de organizações internacionais, o que confere à cimeira uma dimensão multilateral relevante.
Eis na íntegra o discurso:
Sua Excelência Giorgia Meloni, Presidente do Conselho de Ministros da República Italiana,
Sua Excelência Abiy Ahmed, Primeiro-Ministro da República Democrática Federal da Etiópia,
Excelências,
Distintos Chefes de Estado e de Governo,
Sua Excelência, Mahmoud Ali Youssouf, Presidente da Comissão da União Africana,
Minhas Senhoras,
Meus Senhores,
Permitam-me começar por manifestar a minha grande satisfação por poder participar conjuntamente com Vossas Excelências, na Cimeira Itália - África que ocorre na véspera da Assembleia dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana.
Esta segunda edição da Cimeira, por estar a acontecer neste momento, ilustra em grande medida o cuidado que o Governo da República Italiana teve ao procurar sintonizar a sua estratégia com a agenda africana de desenvolvimento, através da criação de um paradigma coerente de cooperação, alinhado com as novas dinâmicas da economia mundial, em que a África não se limitará ao papel de mero fornecedor de matérias-primas, passando a assumir um papel activo e actuante de criador de valor e de fonte de ideias inovadoras.
O mundo está a atravessar um período de transições diversas nos domínios político e económico e dentro de um contexto de realinhamento global das cadeias de abastecimento.
África encontra-se diante de uma oportunidade histórica para, juntamente com os seus parceiros, adequar o poder global às realidades contemporâneas, pois dispomos de recursos que serão vitais para impulsionar a transição energética e a concretização das nossas ambições em termos de infra-estruturas, que têm estado a atrair investimento a nível global, com benefícios mútuos importantes para todos os intervenientes.
A perspectiva de cooperação e de negócios entre África e outros continentes é bastante animadora e não podemos deixar de considerar este encontro entre a Itália e África como uma plataforma oportuna em que vamos procurar conjuntamente encontrar caminhos que nos levem a um intercâmbio activo de sinergias.
África tem muito a oferecer à Europa e ao mundo, muito mais do que matérias-primas em estado bruto.
Contem com as capacidades e contribuição de África na resolução da crise alimentar e energética que assola o nosso planeta desde que possamos receber capitais, conhecimento, tecnologias e outros meios capazes de alavancar o desenvolvimento e crescimento económico do continente.
Temos desafios complexos devidamente identificados, entre os quais sobressaem fundamentalmente os que estão ligados à electrificação, à industrialização, à mobilidade, à educação e à saúde, associados em grande medida ao tema central da União Africana para 2026, que consiste em "assegurar a disponibilidade sustentável de recursos hídricos e um sistema de saneamento seguro para alcançar os objectivos da Agenda 2063"
Excelências,
Minhas Senhoras,
Meus Senhores.
Este encontro entre a África e a Itália demonstra uma convergência de interesses que deve ser aproveitada no máximo das capacidades que os dois lados dispõem, merecendo realce o facto de os nossos parceiros italianos terem conseguido plasmar no Plano Mattei um conjunto de projectos que correspondem às nossas perspectivas de desenvolvimento e mobilizar, para o efeito, o interesse de parceiros multilaterais e do sector privado.
Gostaria de referir, a título de exemplo, que, no caso de Angola, merece realce, de entre outros, o Projecto de Desenvolvimento e Expansão da Cadeia de Valor de Angola, mais conhecido por PRODECAFÉ, que encaramos como um contributo significativo aos nossos objectivos de diversificação da economia, de valorização da cadeia de valores de sectores-chave e de aumento da renda dos pequenos produtores.
Este projecto resulta de uma parceria entre o FIDA, a Cassa Depositi e Prestiti, instituição financeira italiana, e o sector privado, o que evidencia que é possível criarem-se modelos de negócio economicamente integrados e consistentes do ponto de vista comercial.
No quadro deste intercâmbio entre a Itália e a África, as iniciativas não se resumem a questões de ordem material apenas, uma vez que ocupam um lugar predileto os aspectos ligados à formação e à transferência de know-how, o que dará aos projectos do Plano Mattel uma alta relevância social, para além da clara sustentabilidade económica.
O Plano Mattei contempla um conjunto de abordagens que vão desde as infra-estruturas logísticas e de interconexão, como é o caso do Corredor do Lobito, até ao cabo óptico Blue-Raman, reflectindo todos estes aspectos um nível apreciável de compromisso que o Governo italiano tem estado a assumir com o continente para que as nossas perspectivas de desenvolvimento se transformem em benefícios recíprocos e duradouros.
Obrigado pela vossa atenção.