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PR exorta intensificação da cooperação para recuperar activos angolanos

Presidente da República, João Lourenço, preside abertura do Ano Judicial 2026
Presidente da República, João Lourenço, preside abertura do Ano Judicial 2026 Imagens: Cedida

Redacção

Publicado às 19h39 03/03/2026 - Actualizado às 20h00 03/03/2026

Luanda – O Presidente da República, João Lourenço, exortou, esta terça-feira, em Luanda, a intensificação das acções de cooperação com as autoridades das Bermudas, Singapura e Suíça, onde se encontram domiciliados perto de dois mil milhões de dólares já declarados perdidos a favor do Estado angolano por decisão dos tribunais angolanos.

Ao intervir na abertura do Ano Judicial 2026, sob o lema "Justiça, Ética e Responsabilidade", João Lourenço referiu que a recuperação de activos deve ser assumida não apenas como medida patrimonial, mas sobretudo como mecanismo de justiça material, destinado a retirar a vantagem económica da actuação ilícita e a restituir ao Estado e à sociedade os recursos indevidamente apropriados.

João Lourenço encorajou a Procuradoria Geral da República a reforçar a cooperação com instituições congéneres estrangeiras para efeitos de recuperação de activos, citando, a título de exemplo, a celebração do Acordo de Partilha de Bens com a Namíbia e o repatriamento efectivo de parte de activos, a partir de Portugal, revertidos a favor do Estado angolano.

Exigiu ainda que os detentores de activos pertencentes ao Estado angolano, por decisão dos tribunais nacionais, procedam à sua devolução ao legítimo proprietário, sublinhando que as sentenças dos tribunais angolanos não podem ser reavaliadas por tribunais estrangeiros, sendo o Tribunal Constitucional a única entidade competente para apreciar recursos relativos a decisões judiciais proferidas no país.

Enfatizou que o país precisa dos recursos para serem utilizados na construção de escolas, hospitais, estradas e outras infra-estruturas necessárias para o desenvolvimento do país.

O Presidente da República recordou que Angola se encontra em processo de avaliação mútua pelo Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI), visando alinhar o seu sistema nacional de prevenção e combate ao branqueamento de capitais, financiamento do terrorismo e proliferação de armas de destruição em massa com as normas internacionais.

Salientou que a monitorização reforçada, no âmbito do GAFI, exige elevado sentido de responsabilidade, cooperação e coordenação entre as instituições que integram o Grupo de Trabalho Nacional, nomeadamente a Procuradoria-Geral da República, os órgãos de aplicação da lei, a Unidade de Informação Financeira e os serviços de inteligência e investigação económica, com foco na identificação, investigação, acusação e recuperação de activos.

João Lourenço referiu-se, igualmente, ao mais recente relatório do Índice de Percepção da Corrupção de 2025, publicado pela Transparência Internacional, que posiciona Angola na centésima vigésima posição entre 182 países avaliados, tendo considerado os dados animadores, e defendido maior empenho no reforço da integridade pública e na consolidação dos avanços alcançados.

Sublinhou que a independência da justiça não se limita a uma garantia constitucional, constituindo também uma exigência ética individual de cada magistrado, pelo que realçou que “qualquer conduta que comprometa a integridade do sistema judicial afecta não apenas decisões concretas, mas fragiliza a credibilidade de toda a justiça e diminui a confiança da sociedade nas instituições”.

Apelou à contínua observância das normas deontológicas, recordando que a função judicial exige conduta irrepreensível, disciplina, dedicação, sentido de missão e patriotismo, tendo ainda exortado que a luta contra a corrupção, impunidade e todas as formas de desvio ético deve permanecer como prioridade permanente, conduzida com firmeza, justiça e respeito pelos direitos fundamentais.

João Lourenço alertou para a importância da celeridade processual como factor crítico de garantia da justiça, frisando que "uma justiça que tarda em decidir prejudica os cidadãos, afecta a economia, fragiliza a segurança jurídica e compromete a confiança no sistema judicial".

Recomendou, para o efeito, o fortalecimento do capital humano, modernização dos serviços, simplificação de procedimentos, aposta na digitalização e valorização da cultura de responsabilidade, organização e produtividade nas instituições judiciais.

Em matéria de valorização dos recursos humanos, deu a conhecer que foram formados, em 2025, 490 magistrados judiciais, do Ministério Público, técnicos e operadores de justiça, e no âmbito da identificação civil, disse que o Executivo investiu na facilitação do acesso à documentação básica e na fiabilidade do registo do cidadão, com infra-estruturas modernas e soluções que aproximam o serviço do cidadão.

Quanto às condições de trabalho, deu a conhecer que foram instalados quatro Tribunais da Relação em Luanda, Benguela, Lubango e Uíge, permanecendo pendente o de Saurimo, funcionando actualmente, em todo o território nacional, 40 tribunais de comarca, faltando concluir outros 21 previstos no mapa judiciário.

João Lourenço disse que operam quatro Centros Integrados de Atendimento à Criança e ao Adolescente nas províncias da Huíla, Malanje, Moxico e Icolo e Bengo, enquanto o Centro de Reeducação de Menores no Huambo será concluído ainda este ano.

No quadro de acordos judiciais internacionais, destacou que Angola assinou 25 tratados bilaterais de cooperação judiciária penal com 11 países, abrangendo transferências de pessoas condenadas, extradição, auxílio jurídico, troca de informações em processos complexos e combate ao crime económico, corrupção, tráfico de seres humanos e outros ilícitos transnacionais.

Assegurou que o Executivo promove a aprovação de diplomas legais para fortalecer o poder judicial, combater a corrupção e impunidade, proteger direitos fundamentais e reduzir a morosidade processual, e continua a trabalhar na criação de condições materiais, técnicas e organizacionais indispensáveis ao bom funcionamento do sistema judicial, em respeito a autonomia dos tribunais e do Ministério Público.

Sublinhou que Angola foi novamente eleita membro do Conselho de Direitos Humanos da ONU para o período 2026/2028, em reconhecimento do compromisso do país com a promoção das liberdades e direitos fundamentais.

Reconheceu o trabalho patriótico dos magistrados, advogados e funcionários judiciais, ressaltando a necessidade de reforçar a responsabilidade, organização e produtividade nos tribunais como pilares de um sistema judicial credível e eficiente.

Afirmou que o cybercrime constitui hoje um dos maiores desafios da Justiça e recomendou o reforço das acções de prevenção e combate aos crimes informáticos, referindo que relatórios recentes de organizações internacionais indicam uma aceleração do cybercrime no continente africano, com impactos directos nos sistemas financeiros, infra-estruturas críticas, instituições públicas e na confiança dos cidadãos na economia digital.

Alertou para a crescente utilização da inteligência artificial por grupos criminosos, na criação de esquemas de fraude mais sofisticados e na manipulação de imagens e conteúdos digitais, sublinhando que se trata de uma criminalidade sem fronteiras, que exige respostas transnacionais, coordenadas e tecnicamente qualificadas.

Recordou que, em 2025, órgãos da Procuradoria-Geral da República, do Serviço de Investigação Criminal e outras instituições afins assumiram a coordenação nacional de investigações complexas, contra acções criminosas como mineração ilegal de criptomoedas, ataques a sistemas informáticos de bancos e instituições públicas, esquemas de desvio de comunicações electrónicas e exploração ilícita de jogos virtuais.

Informou que o Executivo submeteu à Assembleia Nacional propostas de leis sobre cibersegurança e sobre publicação de notícias falsas na internet, visando proteger os direitos dos cidadãos e as instituições públicas e privadas.

Referiu-se ainda aos investimentos em curso em infra-estruturas tecnológicas para garantir a soberania digital do país, com destaque para a Banda Larga Nacional, o Data Center Nacional, a Cloud Nacional, as infra-estruturas digitais públicas e o Centro Nacional de Cibersegurança.

Recomendou a intensificação das acções de divulgação da Constituição angolana, uma medida essencial para o reforço da cultura jurídica das pessoas e consolidação do Estado Democrático e de Direito, tendo encorajado todas as iniciativas em curso, visando ampla difusão da lei fundamental, incluindo a sua tradução em línguas nacionais e a disponibilização de versões acessíveis às pessoas com deficiência. 

Eis na íntegra o discurso do Presidente João Lourenço na abertura do Ano Judicial 2026: 

-Excelência Senhora Vice-Presidente da República

-Excelentíssimo Senhor Presidente da Assembleia Nacional

-Excelentíssimo Senhor Juiz Conselheiro Presidente do Tribunal Supremo

-Venerandos Juízes Conselheiros Presidentes dos Tribunais Superiores

-Digníssimo Procurador-Geral da República

-Caro Bastonário da Ordem dos Advogados de Angola

-Dignos Magistrados Judiciais e do Ministério Público

-Distintos Membros do Executivo

-Minhas Senhoras, Meus Senhores


É com elevada honra e sentido de Estado que presido a esta cerimónia solene que marca o início do Ano Judicial e simboliza a reafirmação do compromisso colectivo com os valores estruturantes do Estado Democrático e de Direito, consagrados na Constituição da República de Angola.

A abertura do Ano Judicial constitui um acto simbólico de especial importância em que se reafirma o papel da Justiça na consolidação das instituições, na defesa da legalidade, na protecção dos direitos fundamentais e na promoção da confiança dos cidadãos nas instituições do Estado.

Este é um momento oportuno de reflexão sobre os desafios que se colocam à administração da Justiça, num contexto de crescente complexidade social, económica e tecnológica, que exige respostas eficientes consentâneas com a necessidade de salvaguardar os interesses do Estado e, simultaneamente, promover e proteger os direitos, liberdades e garantias fundamentais.

A Constituição da República continua a ser a nossa bússola orientadora, o nosso verdadeiro pacto social, a base jurídica central não apenas de legitimação do exercício dos poderes Executivo, Legislativo e Judicial, mas também do exercício da cidadania plena.

Aproveito, por isso, esta ocasião, para encorajar todas as iniciativas que têm sido realizadas com vista à sua divulgação, incluindo a sua tradução nas línguas nacionais e a versão em braille, como forma de elevar a cultura jurídica dos cidadãos, particularmente daqueles que, por razões congénitas ou adquiridas, não conseguem ver ou ouvir.

Caros Convidados,

O princípio da separação de poderes e interdependência de funções é um pilar essencial da organização do Estado consagrado na nossa Lei Fundamental, que deve ser observado como um mecanismo de equilíbrio, de controlo recíproco e, sobretudo, de cooperação institucional entre os órgãos de soberania.

O reforço da articulação funcional entre os poderes Executivo, Legislativo e Judicial, assente na cooperação e diálogo institucional, é indispensável para a realização do interesse público.

Cada órgão de soberania exerce competências próprias com autonomia e independência, mas todos partilham uma missão comum, a de servir a República e os cidadãos.

A cooperação institucional entre os poderes não diminui a independência de nenhum deles, pelo contrário fortalece-os, melhora a eficácia das instituições e contribui para uma governação mais justa, mais equilibrada e mais eficiente.

A confiança dos cidadãos na Justiça constitui um dos mais importantes indicadores do estado de uma democracia. E essa confiança constrói-se também com integridade, honra, rigor, transparência e a probidade daqueles que têm a elevada responsabilidade de administrar a Justiça.

Neste domínio, é importante reconhecer e valorizar o trabalho dedicado e patriótico da esmagadora maioria dos magistrados, dos advogados e dos funcionários judiciais que, com sacrifício pessoal e elevado sentido de dever funcional, contribuem diariamente para a afirmação e consolidação do sistema de justiça em Angola.

Exorto, por isso, a contínua observância das normas deontológicas por parte de todos os operadores do sistema de justiça, porquanto a função judicial, pela sua nobreza, exige uma conduta irrepreensível, disciplina, dedicação, sentido de missão e, acima de tudo, patriotismo.

Neste sentido, a luta contra a corrupção, contra a impunidade e contra todas as formas de desvio ético deve continuar a ser uma prioridade de acção permanente, conduzida com firmeza, com justiça e com respeito pelos direitos fundamentais, de tal sorte que a independência da justiça não se resuma apenas a uma garantia institucional, mas também a uma exigência ética de cada magistrado.

Qualquer conduta que coloque em causa a integridade do sistema judicial afecta a decisão concreta, compromete a credibilidade de toda a Justiça e enfraquece a confiança dos cidadãos nas instituições públicas.

A celeridade processual é outro factor crítico de garantia da justiça que deve merecer atenção. Uma Justiça que tarda excessivamente em decidir é uma justiça que falha no seu propósito essencial, porque a morosidade processual prejudica os cidadãos, afecta a economia, fragiliza a segurança jurídica e compromete a confiança no sistema judicial.

Sem condicionar a qualidade das decisões, a celeridade deve ser assumida como um valor essencial da boa administração da justiça pois, como se diz, “justiça tardia pode equivaler a justiça negada”.

É, por isso, imperioso continuar-se a desenvolver esforços para tornar a Justiça mais célere, mais eficiente e mais próxima dos cidadãos, por via do reforço e qualificação do capital humano, da modernização dos serviços, da simplificação de procedimentos, da aposta na digitalização, da melhoria das condições de trabalho, mas também pelo reforço da cultura de responsabilidade, organização e produtividade no seio das instituições judiciais.

Para a concretização dessas medidas, no âmbito da valorização dos recursos humanos foram formados, em 2025, um total de 490 magistrados judiciais e do Ministério Público, bem como técnicos e operadores de justiça.

Na identificação civil, temos investido de forma consistente para facilitar o acesso à documentação básica e reforçar a fiabilidade do registo do cidadão, com infra-estruturas modernas de produção e com a expansão de soluções que aproximam o serviço do cidadão.

De igual modo, o Executivo tem apostado em remover barreiras à formalização e ao investimento. Por via do Guiché Único da Empresa, superintendido pelo Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos, é hoje possível constituir, alterar e actualizar empresas de forma presencial ou online, com publicação electrónica e maior transparência no acompanhamento dos processos.

A modernização da plataforma digital do Guiché Único da Empresa permite ao utente acompanhar os seus pedidos em tempo real, reduzindo deslocações, custos e incerteza.

Relativamente à melhoria das condições de trabalho, até à presente data foram implementados 4 Tribunais da Relação em Luanda, Benguela, Lubango e Uíge, faltando, neste quesito, a implantação do Tribunal da Relação de Saurimo.

Foram ainda implantados 40 Tribunais de Comarca a nível do país, ficando por implantar os restantes 21 tribunais desta categoria previstos no mapa judiciário, situação que pretendemos resolver com a urgência que se impõe.

No quadro da promoção, expansão e funcionamento da justiça juvenil, é importante destacar que estão em funcionamento 4 Centros Integrados de Atendimento à Criança e ao Adolescente nas províncias da Huíla, Malanje, Moxico e Icolo e Bengo, que operam junto das Salas de Justiça Juvenil.

Vamos dar início, ainda este ano, à conclusão das obras do Centro de Reeducação de Menores na província do Huambo.

Gostaria igualmente de sublinhar a importância estratégica dos acordos judiciais internacionais, que representam hoje uma das ferramentas mais poderosas para assegurar a eficácia da justiça para além das nossas fronteiras.

Neste sentido, Angola assinou 25 acordos e tratados bilaterais de cooperação judiciária internacional em matéria penal com 11 países.

Estes acordos versam sobre a transferência de pessoas condenadas, extradição, auxílio jurídico e permitem que Angola troque informações com outros Estados, execute decisões judiciais estrangeiras sempre que adequado, solicite assistência em processos complexos e contribua para o combate eficaz ao crime económico, à corrupção, ao tráfico de seres humanos e a outros ilícitos transnacionais.

Os acordos de cooperação garantem ainda maior previsibilidade, segurança jurídica e confiança nas relações comerciais e financeiras internacionais, reforçando o nosso posicionamento no sistema jurídico global, constituindo-se em verdadeiros pilares de sustentação da justiça moderna.

Quanto às convenções e protocolos internacionais, estes desempenham um papel essencial no fortalecimento do nosso sistema judicial.

Os protocolos têm assegurado a coordenação institucional e a correcta formalização das relações entre órgãos nacionais e estrangeiros, permitido que Angola actue com credibilidade, rigor e eficácia em todos os domínios da justiça, tanto interna como internacionalmente.

Neste domínio, foram ratificados e assinados vários protocolos e convenções no âmbito das organizações internacionais de que Angola é parte, com destaque para a Organização das Nações Unidas, a Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa, a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral e a União Africana.

No capítulo da melhoria do quadro normativo, o Executivo tem promovido a aprovação de vários diplomas legais com vista ao fortalecimento institucional do poder judicial, combate à corrupção e à impunidade, a protecção dos direitos fundamentais, a melhoria da eficiência e redução da morosidade dos processos, e temos em carteira a aprovação dos códigos da família, civil, comercial, do processo laboral, entre outros diplomas já elaborados no domínio da reforma da Justiça e do Direito.

Estas medidas são certamente decisivas para reduzir a morosidade processual e fortalecer a confiança dos cidadãos na justiça.

O Executivo continuará a cumprir a sua responsabilidade de criar as condições materiais, técnicas e organizacionais indispensáveis ao bom funcionamento do sistema judicial, respeitando escrupulosamente a autonomia dos Tribunais e do Ministério Público, no quadro da Constituição e da Lei.

Na vertente dos direitos humanos, o Executivo, por via dos órgãos e serviços competentes e outros parceiros, tem reforçado a prevenção e o combate a práticas como o tráfico de seres humanos; consolidado a cooperação internacional e integrado, cada vez mais, a abordagem sobre os direitos humanos na gestão pública, sendo de destacar a criação de comités locais de direitos humanos ao nível das províncias, dos municípios e de algumas comunas.

O país é cada vez mais plural, estando o exercício das liberdades individuais e colectivas, nos termos da lei, garantido. As plataformas de diálogo com a sociedade civil estão disponíveis, quer ao nível central como local, o que aumenta a credibilidade internacional do nosso país.

Como resultado desse trabalho colectivo, Angola foi eleita novamente membro do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas para o triénio 2026 – 2028, uma missão que encaramos com elevada responsabilidade, como todas as outras que nos são confiadas.

Minhas Senhoras, Meus Senhores

O caminho que Angola tem vindo a trilhar nos últimos anos demonstra que estamos firmemente comprometidos com o reforço das instituições, com a consolidação do Estado de Direito e com a afirmação de uma justiça cada vez mais independente, credível e eficaz.

Este processo deve ser contínuo, pois exige perseverança, coragem e compromisso permanente, na medida em que cada magistrado, funcionário judicial ou responsável institucional tem um papel insubstituível nesta missão.

É por isso um imperativo que todos continuemos a trabalhar com sentido de missão e espírito patriótico, para o fortalecimento do sistema judicial e para a construção de uma Angola cada vez mais justa, íntegra e democrática.

Devemos trabalhar juntos e combater de modo mais enérgico os crimes contra menores, reforçar os mecanismos de tutela dos direitos das crianças contra todo o tipo de abuso e exploração, prevenir e combater os actos de vandalismo de bens e serviços públicos, assim como proteger o Estado e os cidadãos contra os crimes informáticos e não só.

Em relação ao combate ao cibercrime, não podemos deixar de reconhecer que a Justiça enfrenta hoje um dos mais complexos desafios da actualidade, a criminalidade no ciberespaço.

Relatórios recentes de organizações internacionais indicam que o cibercrime está a acelerar no continente africano, ameaçando sistemas financeiros, infra-estruturas críticas, instituições públicas e a confiança dos cidadãos na economia digital.

De igual modo, surgem alertas para a crescente utilização de Inteligência Artificial por grupos criminosos, quer na criação de campanhas de fraude mais convincentes, quer na manipulação de imagens e conteúdos digitais.

Trata-se de uma criminalidade que não conhece fronteiras e que exige respostas igualmente transnacionais, coordenadas e tecnicamente qualificadas.

Em 2025, órgãos da Procuradoria-Geral da República, do Serviço de Investigação Criminal e outros afins, assumiram a coordenação nacional de investigações complexas, envolvendo acções criminosas como mineração de criptomoedas, ataques a sistemas informáticos de bancos e instituições públicas, esquemas de desvio de comunicações electrónicas, exploração ilícita de jogos virtuais, entre outros.

Desses processos relacionados com fenómenos de cibercrime, foram apreendidos bens móveis e imóveis e valores monetários avaliados em cerca de 20 milhões de dólares norte americanos.

Continuamos perante um grande desafio, a sofisticação das organizações criminosas, a utilização de ferramentas inovadoras, a manipulação através de Inteligência Artificial e a transnacionalidade das infra-estruturas digitais, impõem um esforço contínuo de modernização legislativa, tecnológica e formativa.

Foi dado um passo importante no capítulo da cooperação internacional para o combate ao cibercrime. Angola assinou a Convenção das Nações Unidas contra o cibercrime, pelo que deve prosseguir com as fases subsequentes até ao envio dos instrumentos de ractificação às Nações Unidas.

No plano interno, o Executivo submeteu à aprovação da Assembleia Nacional uma proposta de lei da cibersegurança e outra sobre a publicação de notícias falsas na internet como forma de proteger os direitos dos cidadãos e das instituições públicas e privadas.

Estamos a fazer investimentos significativos em infra-estruturas tecnológicas para a garantia da nossa soberania digital como são os casos da Banda Larga Nacional, do DataCenter Nacional, da Cloud Nacional, das Infra-estruturas Digitais Públicas e do Centro Nacional de Cibersegurança.

Caros Magistrados Judiciais e do Ministério Público,

A criminalidade económico-financeira corrói a confiança nas instituições, compromete o desenvolvimento e distorce a concorrência económica, por isso o combate a este mal constitui prioridade estratégica do Estado angolano.

Essas práticas criminais têm demandado uma actuação incisiva do Executivo e da Procuradoria-Geral da República, os quais têm a responsabilidade partilhada de implementar a Estratégia Nacional de Prevenção e Combate à Corrupção.

Angola está no processo de Avaliação Mútua do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI), com a finalidade de alinhar o sistema nacional de prevenção e combate do Branqueamento de Capitais e do Financiamento do Terrorismo e Proliferação de Armas de Destruição em Massa com as normas internacionais.

Importa salientar que a monitorização reforçada no âmbito do GAFI exige de todas as instituições que integram o Grupo de Trabalho Nacional um elevado sentido de responsabilidade, cooperação e coordenação, nomeadamente entre a Procuradoria-Geral da República com os órgãos de aplicação da lei, a Unidade de Informação Financeira e os órgãos de inteligência e inspecção económica, visando a identificação, investigação, acusação e a recuperação de activos.

A recuperação de activos deve continuar a ser assumida não apenas como uma medida patrimonial, mas sobretudo como um mecanismo de justiça material, que visa retirar a vantagem económica da actuação ilícita, restituindo ao Estado e à sociedade os recursos indevidamente apropriados.

Encorajo a Procuradoria-Geral da República a reforçar a cooperação com suas congéneres para efeitos de recuperação de activos, a exemplo da celebração do Acordo de Partilha de Bens com a República da Namíbia e o repatriamento efectivo de parte dos activos a partir de Portugal, revertidos a favor do Estado angolano.

Estes factos representam resultados concretos do esforço institucional persistente e articulado, numa altura em que permanecem situações pendentes em diversos países.

Por esta razão, devemos continuar a intensificar acções de cooperação com as Repúblicas das Bermudas, Singapura e a Confederação Suíça, que domiciliam, de modo global, perto de dois mil milhões de dólares norte-americanos, que já foram objecto de decisão por parte da Justiça angolana, de perda a favor do Estado angolano.

Precisamos destes recursos para colocá-los ao serviço do nosso povo, construir escolas, hospitais, estradas e outras infra-estruturas necessárias para o desenvolvimento do país.

O nosso esforço colectivo de prevenção e combate à corrupção tem merecido o reconhecimento a nível nacional e internacional.

Temos feito a nossa parte no combate contra a corrupção e a impunidade, exigimos aos detentores dos activos que são pertença do Estado angolano por decisão dos tribunais angolanos, que os devolvam ao legítimo proprietário.

As sentenças dos tribunais angolanos não podem ser reavaliadas por tribunais estrangeiros, sendo, no caso vertente, o Tribunal Constitucional angolano a única entidade de recurso competente para questionar os acórdãos e as sentenças dos tribunais angolanos.

O mais recente relatório do Índice de Percepção da Corrupção de 2025, publicado pela Transparência Internacional, coloca Angola na 120.ª posição de um total de 182 países avaliados, tendo o nosso país duplicado a posição que ocupava em 2015, fruto das reformas estruturais sustentadas e do reforço da integridade pública.

Estes são dados animadores que nos devem estimular a fazer mais e melhor no domínio da prevenção e combate à corrupção.

Finalmente, permitam-me dirigir uma palavra de encorajamento a todos os magistrados judiciais e do Ministério Público, advogados, funcionários do sector da Justiça e demais operadores do Direito, augurando a concretização dos objectivos definidos para o presente Ano Judicial orientado pelos mais elevados valores de justiça, legalidade e de serviço à Nação.

Uma Justiça eficaz é um factor decisivo para o desenvolvimento económico, para o investimento e para a estabilidade social. Juntos devemos consolidar as conquistas alcançadas nestes 50 anos de Angola independente e continuar a projectar um futuro risonho para todos os angolanos.

Formulo votos de pleno sucesso e declaro oficialmente aberto o Ano Judicial 2026.

Muito obrigado pela vossa atenção.

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