Especialistas apontam que novos partidos políticos enfrentam falta de identidade
Luanda - A permanência dos movimentos de libertação, hoje partidos políticos, a fragmentação dos novos partidos e a dificuldade dos mesmos em apresentarem projectos políticos sustentáveis estão entre os principais desafios apontados por especialistas, que participaram no programa informativo “Girassol Debate”, da televisão Rede Girassol.
Os especialistas Mário Pires, engenheiro e consultor de desenvolvimento; João Gonçalves, jornalista e especialista em assuntos africanos, Sérgio Calundungo, coordenador do Observatório Político e Social de Angola (OPSA) e Jonuel Gonçalves, economista, professor e pesquisador, abordaram, segunda-feira última, a actual configuração política de Angola.
De acordo com a lista de partidos políticos actualmente disponibilizada pelo Tribunal Constitucional, Angola conta com 16 formações políticas com inscrição válida, sendo os três movimentos associados à luta pela independência, designadamente MPLA, UNITA e FNLA, sete partidos inscritos entre 1990 e 2010, e seis surgidos de 2022 à presente data.
Consistência dos Movimentos de Libertação
Ao analisar a permanência dos movimentos históricos no poder ou nas proximidades do poder, Jonuel Gonçalves considerou que a sua continuidade está relacionada, entre outros factores, a ausência de alternativas capazes de se afirmarem politicamente.
Para o pesquisador, “há uma persistência dos movimentos que lutaram pela independência”, que continuam a manter influência no cenário político nacional.
Por sua vez, Sérgio Calundungo apresentou uma perspectiva diferente sobre o conceito de consistência, defendendo que esta não deve ser avaliada apenas pela permanência ou não de uma força política no poder.
Para o coordenador do OPSA, a análise deve considerar outros elementos da trajectória e da capacidade de organização dos partidos e movimentos políticos.
Já o engenheiro Mário Pires defendeu uma leitura mais abrangente sobre o percurso dos movimentos de libertação e os efeitos da guerra na estrutura política angolana.
Na análise aos novos partidos, apontou a pulverização das formações como um dos principais sinais de inconsistência, considerando que a fragmentação dificulta a construção de uma alternativa política com maior expressão.
Mário Pires questionou igualmente a capacidade da oposição em apresentar propostas estruturadas para o país.
Na sua perspectiva, o problema não está apenas na apresentação de opiniões, mas na capacidade de formular soluções, sublinhando que “o problema não é ter opinião, é ter solução”.
Por seu lado, João Gonçalves apontou a ausência de uma ideologia claramente definida em muitos dos partidos que surgem no país.
Ao abordar o percurso das formações políticas históricas, lamentou ainda a situação actual da FNLA, considerando que o partido representa um dos casos que merecem reflexão no debate sobre a consistência dos movimentos de libertação.
Desafios dos novos partidos num cenário dominado por partidos antigos
Sobre as dificuldades das novas formações políticas, Sérgio Calundungo falou daquilo que considera ser “a ilusão da facilidade” na criação de um partido, sublinhando que constituir uma organização política é apenas o início de um processo que exige capacidade de construção, organização e afirmação junto dos eleitores.
O especialista considerou também que muitos partidos novos acabam por reproduzir, internamente, práticas semelhantes às que criticam nas formações políticas já estabelecidas.
Mário Pires considerou que a consolidação de uma nova força política enfrenta um território onde os partidos tradicionais já possuem raízes profundas.
“A mim, não me parece que vá sair uma força da alternância que não venha de dentro dos dois grandes partidos”, afirmou o engenheiro e consultor de desenvolvimento, numa leitura sobre os obstáculos à emergência de uma nova força com capacidade de disputar o poder.
Sérgio Calundungo reforçou a dimensão do desafio, ao afirmar que “é muito difícil lutar num território em que os partidos estão enraizados”, enquanto Mário Pires chamou a atenção para a forte personificação da liderança no contexto político africano.
Na sua análise, muitos projectos continuam dependentes da figura do líder e, no actual cenário, não identifica num novo partido uma mensagem suficientemente forte para captar a juventude.
O debate terminou com diferentes perspectivas sobre o futuro das forças políticas em Angola, colocando em discussão, não apenas a permanência dos movimentos de libertação, mas também a capacidade dos novos partidos em ultrapassarem a fragmentação, apresentarem projectos políticos sustentáveis e construírem uma identidade própria num cenário marcado pela presença de formações políticas historicamente enraizadas.