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Conflito entre comunidades mucubal e nyaneka provoca 12 mortos

Gado na região sul de Angola
Gado na região sul de Angola Imagens: DR

Redacção

Publicado às 11h03 19/08/2025

Luanda - Doze pessoas morreram e três outras ficaram feridas, resultado de confrontos entre as comunidades mucubal e nyaneka, nos municípios das Cacimbas e do Camucuio (província do Namibe), ocorridos sábado último, por causa de roubo de gado e disputa no uso de uma mesma represa de água.

Os dados foram revelados pela administradora municipal das Cacimbas, Júlia Morais, em declarações à imprensa, esta segunda-feira, adiantando que foram ainda queimados 15 quimbos (aldeias).

Júlia Morais falava à margem de um encontro dirigido pelo governador em exercício do Namibe, Abel Kapitango, com as administrações das duas localidades, autoridades tradicionais e eclesiásticas e representantes das duas tribos rivais.

Recordou que o conflito iniciou, em Março do ano em curso, quando um suposto grupo de mucubais roubou gado dos nyanekas e, em retaliação, um mucubal foi morto.

Sublinhou que o roubo de gado e o uso da mesma represa de água, no Mulovei (município das Cacimbas), tem sido a razão dos conflitos e rixas entre as duas etnias.

Deu a conhecer que a população está concentrada junto à Administração Municipal e as crianças nas cozinhas comunitárias, enquanto centenas de pessoas armadas com zagaias e catanas encaminham-se para o município de Camucuio, à procura dos mucubais, para fazer justiça pelas próprias mãos, em retaliação a morte dos seus familiares.

A administradora salientou que os mucubais, quando se deslocam à localidade de Mulovei, onde se localiza a represa, para além de darem de beber o gado, vandalizam lojas, roubam bem alimentares e retiram o capim da cobertura das casas, alegando ser produto para alimentação dos animais.

Por seu lado, o administrador do Camucuio, Manuel Canivete, afirmou que, desde Maio do corrente ano, têm sido registados casos de roubo de gado e luta entre as duas tribos, reconhecendo que a polícia tem resolvido as brigas, tendo as mesmas piorado, com a do último fim-de-semana.

Manuel Canivete sublinhou que não há tranquilidade no município de Camucuio, pelo que os mucubais estão sob custódia da Administração e da Polícia Nacional, porque um grupo de nyanecas de motorizadas e armados com zagaias e catanas ameaçam a vida dos mucubais.

Durante o encontro, o soba grande das Cacimbas, Manuel Ndengue, defendeu que o problema só será resolvido com a distribuição de uma represa para cada tribo, denunciando que quem está a cometer os crimes são jovens, apesar de os seus progenitores terem desaconselhado justiça pelas próprias mãos.

O representante da etnia mucubal, Bapauca Wate, lembrou que o conflito é centenário, derivado da utilização dos nyanecas pelos colonos para capturar os filhos dos mucubais e servirem como escravos, além do roubo do seu gado.

Por sua vez, os representantes dos nyanecas solicitaram represas para as suas comunidades.

Entretanto, o governo da província do Namibe determinou que os órgãos de defesa e segurança desarmem imediatamente as populações dos municípios das Cacimbas e do Camucuio, a fim de prevenir novos confrontos entre os povos mucubal e nyaneka.

A decisão foi tomada no encontro dirigido pelo governador em exercício, Abel Kapitango, que reuniu autoridades administrativas, policiais, tradicionais, eclesiásticas e representantes da sociedade civil, assim como das comunidades envolvidas no conflito.

As forças da ordem devem, no mais curto espaço de tempo, recolher zagaias, mocas, catanas e outras armas brancas, sobretudo nas localidades de Mulovei, Mulundo, Calucayona, entre outras, onde os conflitos têm sido mais intensos.

O governo provincial orientou a necessidade de se reforçar e aumentar a presença policial e os meios logísticos na região, para travar os confrontos, que envolvem sobretudo jovens dos dois grupos étnicos.

Determinou igualmente que a utilização da represa de Mulovei passa a ser regulada pela Polícia Nacional, em benefício de todos os criadores de animais, assim como recomendou a realização de encontros regulares entre as partes, privilegiando o diálogo como instrumento de prevenção e solução pacífica.

Representantes dos dois grupos étnicos selaram simbolicamente a paz, comprometendo-se a sensibilizar os jovens para evitarem novos confrontos.

Foi igualmente assegurado, pelas autoridades da província do Namibe, apoio às famílias das 12 vítimas mortais.

De acordo com o porta-voz do encontro, Hélder Manuel, citado pela ANGOP, o governo irá disponibilizar urnas e meios logísticos para a realização das exéquias das vítimas, maioritariamente jovens, resultantes do conflito entre os dois grupos.

As cerimónias fúnebres estão previstas para quarta-feira, sendo dois no município do Camucuio e dez nas Cacimbas.

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