Literatura pode ajudar mulheres a enfrentar o isolamento emocional
Luanda - A literatura pode constituir uma ferramenta de reflexão, expressão e fortalecimento emocional para as mulheres, sobretudo em contextos marcados por dificuldades sociais e económicas.
A ideia foi defendida sábado, em Luanda, pela escritora Taurina de S., pseudónimo de Etaniela da Silva Xavier, durante a iniciativa “Resenha entre Mulheres”, realizada no âmbito das actividades do Setembro Amarelo, mês dedicado à sensibilização para a saúde mental e à prevenção do suicídio.
Segundo a escritora que dissertou na actividade, a escolha do tema esteve relacionada com a necessidade de discutir questões que afectam particularmente as mulheres, entre elas a ansiedade, a depressão e o isolamento emocional, de acordo com o JA Online.
“A literatura é uma delas”, afirmou, sublinhando que o contacto com livros e com autoras que atravessaram diferentes experiências de vida pode contribuir para preencher espaços de vazio emocional e estimular novas perspectivas.
Considera ainda que a leitura de obras produzidas por mulheres que representam movimentos sociais, processos de transformação e diferentes formas de pensamento pode servir de inspiração para outras mulheres, tanto no campo pessoal como no literário.
Falta de incentivo condiciona produção literária
Outro dos assuntos abordados no evento foi a participação das mulheres angolanas na produção literária. Para a escritora, atribuir a reduzida presença feminina no sector à falta de conhecimento seria simplificar uma questão que envolve factores sociais, económicos e culturais.
Na sua perspectiva, existem mulheres com ideias e conhecimento, mas faltam, em muitos casos, tempo, disponibilidade, incentivo e condições materiais para transformar essas ideias em obras publicadas.
“As mulheres desempenham em Angola muitas funções”, explicou, acrescentando que essa realidade pode limitar a disponibilidade e os recursos financeiros necessários para escrever, publicar e promover um livro.
As condições sociais e geográficas também foram apontadas como factores que influenciam o acesso à literatura e à produção cultural, contribuindo para que algumas mulheres tenham maiores dificuldades em desenvolver o seu percurso como leitoras ou escritoras.
Incentivar a leitura
Como uma das respostas a este cenário, Taurina de S. defendeu o incentivo à leitura desde as diferentes oportunidades disponíveis.
“Comece por ler alguma coisa até que você seja despertada”, aconselhou, considerando que o contacto inicial com os livros pode despertar o interesse pela leitura e, posteriormente, pela escrita.
A autora da obra Uma Vida Inteira Sendo Dolorosamente Mulher, referiu-se igualmente a criação de mecanismos que permitam a distribuição gratuita ou facilitada de livros, sobretudo para pessoas com menor capacidade financeira.
Na sua visão, autores e editoras podem estabelecer maior ligação com bibliotecas comunitárias, bibliotecas de rua, clubes de leitura e associações de leitores, criando formas alternativas de fazer chegar as obras ao público.
A medida seria particularmente importante para mulheres residentes em zonas mais afastadas dos grandes centros urbanos ou que enfrentam dificuldades económicas e sociais que limitam o acesso aos livros.
Autores chamados a aproximar os livros dos leitores
Mais do que produzir e publicar, a escritora considera necessário pensar também nas formas de circulação das obras.
“É importante que os autores não só escrevam, mas garantam que as suas obras encontrem caminho gratuito para chegar a leitores que não têm capacidade de comprar”, frisou Taurina de S.
A proposta passa, assim, por reforçar a ligação entre escritores, editoras, bibliotecas, associações e comunidades, de modo a ampliar o acesso à literatura.
Realizada no contexto do Setembro Amarelo, a “Resenha entre Mulheres” procurou, deste modo, cruzar literatura, condição feminina e saúde mental, chamando a atenção para a importância de criar espaços de diálogo, leitura e expressão para as mulheres.