Uso de produtos clareadores de pele ganha espaço no país
Luanda - O uso de produtos para tornar a pele mais clara, esteve em abordagem, recentemente, no programa "Reportagem da Semana", da Rede Girassol, sobre esta prática, vulgarmente conhecida como paculamento.
“Tinha uma cor meio escura. Depois que comecei a usar este tipo de creme, a minha pele ficou muito bonita e passei a usar sempre", este é relato de Rosa Bento, ao programa, abordada sobre o assunto.
A história de Rosa Bento é semelhante à de Sofia João, de 19 anos, que disse recorrer a cremes clareadores há cerca de três anos, inspirada na aparência da pele da irmã mais velha.
Desde então, mantém o hábito, por considerar que os cremes melhoram a aparência da sua pele.
Mas o que leva cada vez mais pessoas a quererem clarear a pele? A procura de um ideal de beleza, a influência social e a valorização de determinados tons de pele, estão entre as questões que alimentam este fenómeno.
Para além da aparência, o chamado paculamento levanta preocupações relacionadas com a autoestima, a identidade e os riscos para a saúde. Para compreender as motivações por detrás desta prática e conhecer as suas consequências, a equipa de reportagem da Rede Girassol foi à procura de respostas.
Na perspectiva do sociólogo Marcelino Paxe, há quem recorra a estes produtos na tentativa de corrigir aquilo que considera ser um defeito na própria pele.
O especialista associa este comportamento a factores históricos e sociais que contribuíram para a valorização da pele clara, fazendo com que algumas pessoas a relacionem com melhores oportunidades e maior reconhecimento social.
“Nos processos de descolonização e em função da realidade social, as pessoas foram adquirindo aquilo a que podemos chamar um complexo de inferioridade, que as levava a acreditar que a prática da coloridade, que é a tonificação da pele próxima a de uma pessoa branca, poderia ser uma espécie de capital social e económico, permitindo melhores oportunidades, ofertas de emprego e maior reconhecimento social”, explicou, considerando esta prática um comportamento socialmente induzido.
Uma visão que encontra paralelo na reflexão do renascentista afrocentrista, Gerio Cabunde. Para o especialista, as raízes do fenómeno vão além da procura estética e estão também ligadas às marcas históricas da escravatura, que, na sua perspectiva, afectaram a autoestima e a consciência histórica dos povos africanos.
“Na escravidão, mexeram com a nossa consciência histórica, sobretudo com a nossa autoestima, com o nosso íntimo mais íntimo, para depois nos oferecerem muletas, que são os cremes clareadores”, afirmou.
Os riscos para a saúde
Se, para alguns, o clareamento representa uma forma de melhorar a aparência, para os profissionais de saúde a prática pode esconder consequências graves, sobretudo quando envolve produtos inadequados ou substâncias tóxicas.
A dermatologista Érica Nelumba alerta que a redução da melanina, pigmento responsável pela cor da pele e que desempenha um papel importante na protecção contra a radiação ultravioleta, pode comprometer essa defesa natural.
“Quando utilizamos produtos para clarear a pele com o objectivo de remover completamente a melanina, estamos a expor-nos a riscos muito grandes. Um deles é o cancro da pele, porque perdemos parte da protecção que nos é conferida pela melanina”, advertiu a especialista.
O perigo pode ser ainda maior quando os produtos contêm substâncias tóxicas, como o mercúrio, que pode afectar órgãos vitais e comprometer diferentes funções do organismo.
“Estamos a falar de substâncias conhecidamente tóxicas para o nosso organismo, como o mercúrio, que pode causar doenças dos rins, insuficiência renal, psicoses, depressão, alterações no sistema imunitário e sanguíneo, bem como danos no ADN”, referiu.
Um mercado em expansão
Para além das motivações sociais e dos riscos clínicos, o clareamento da pele alimenta uma indústria global que movimenta milhares de milhões de dólares. Os mercados asiático e africano estão entre os que registam uma procura significativa por produtos destinados para tornar a pele mais clara. Em Angola, muitos dos produtos comercializados para este fim são provenientes da República Democrática do Congo e da Nigéria.
As estimativas da empresa de pesquisa e análise de mercado, Mordor Intelligence, apontam para um crescimento expressivo deste sector. Considerando diferentes produtos, desde cremes e pomadas até soluções injectáveis, o mercado poderá movimentar mais de 23 mil milhões de dólares norte-americanos em 2026, com a previsão de atingir pelo menos 34 mil milhões até 2030.
Entre a procura de um ideal de beleza, as pressões sociais e os interesses de uma indústria em expansão, o clareamento da pele continua a levantar questões que vão além da estética.
A discussão passa pela valorização da identidade, pela aceitação da diversidade dos tons de pele e, sobretudo, pela necessidade de informar sobre os riscos de práticas que podem comprometer a saúde.