Especialista defende o reforço da gestão dos recursos hídricos
Luanda - Angola possui um elevado potencial hídrico, mas continua a enfrentar desafios na gestão, conservação e aproveitamento dos recursos disponíveis, alertou, em Luanda, o director do Instituto Médio de Gestão de Águas e Preservação Ambiental (IMENHA).
O engenheiro hidráulico e sanitário Francisco dos Santos, defendeu a necessidade urgente de reforçar as infra-estruturas de captação, armazenamento e distribuição de água, a par do investimento na formação de quadros especializados.
O país integra cinco grandes bacias hidrográficas transfronteiriças — as dos rios Congo, Zambeze, Okavango, Cuvelai e Cunene —, partilhadas com nações vizinhas, o que eleva a importância da cooperação regional.
“A água está distribuída por diferentes regiões do território, embora a sua disponibilidade e ocorrência variem de uma zona para outra, dividindo-se entre cursos superficiais e reservas subterrâneas”, sublinhou.
Apesar desta riqueza natural, disse, o principal desafio consiste em garantir o seu aproveitamento racional para responder às necessidades do consumo doméstico e industrial, da agricultura, da limpeza pública, do turismo, da recreação e do desporto.
Francisco dos Santos considerou que, em determinadas localidades, a insuficiência de infra-estruturas técnicas limita o acesso à água, enquanto noutras, apesar da existência de equipamentos, persistem dificuldades relacionadas com a manutenção e a preservação dos sistemas.
Ordenamento do território
Para optimizar a gestão dos recursos hídricos, defendeu a criação de uma autoridade pública estrutural, responsável por coordenar as obras de saneamento básico e de preservação ambiental, assegurando maior articulação entre as intervenções urbanas e rurais.
Na sua perspectiva, a falta de coordenação e o incumprimento de critérios técnicos na execução de infra-estruturas geram impactos ambientais negativos, comprometem o investimento público e agravam o ordenamento do território.
Chamou também a atenção para a necessidade de reforçar a formação técnico-científica no sector, sustentando que o país deve conceder a esta área a mesma prioridade atribuída a outros ramos da Engenharia.
A escassez de conhecimento especializado, afirmou, propicia a ocupação desordenada junto às margens dos rios e incentiva práticas de exploração que degradam a qualidade da água.
Barragens
No domínio das infra-estruturas, o especialista realçou que a construção e reabilitação de bacias e estruturas de retenção de água devem ser precedidas de estudos hidrográficos rigorosos.
O objectivo é optimizar o controlo de cheias e inundações, além de aumentar a disponibilidade do recurso nas regiões mais afectadas pela seca.
Na sua visão, a execução de projectos estruturantes, sustentados por análises técnicas adequadas e por uma gestão coordenada, ampliará a cobertura do abastecimento e impulsionará o desenvolvimento económico e social.
Enfatizou que a segurança hídrica é o pilar fundamental para a atracção de investimento privado, a fixação das populações nas suas zonas de origem e o fomento da agricultura sustentável, reduzindo a vulnerabilidade social provocada por crises climáticas cíclicas.
Cooperação com países vizinhos
Francisco dos Santos indicou que a gestão das bacias hidrográficas transfronteiriças exige diálogo contínuo e cooperação entre as nações, harmonizando os diferentes interesses económicos e ambientais.
Apontou a bacia do Cunene, partilhada por Angola e Namíbia, como um exemplo bem-sucedido de cooperação bilateral, com destaque para as infra-estruturas hidrotécnicas de Calueque e Ruacaná, fundamentais para o abastecimento público e aproveitamento energético.
“A extensão do impacto do Canal do Cafu para zonas do Norte da Namíbia constitui uma iniciativa capaz de estreitar as relações bilaterais e ampliar os benefícios do uso partilhado da água”, considerou.
Manifestou ainda a expectativa de que a água retida nas barragens do Ndue e do Calucuve, mediante estudos técnicos viáveis, impulsione o abastecimento no Sul de Angola e fomente actividades agro-industriais, turísticas e desportos náuticos.